Fôlego

Fôlego

Era um amor rodrigueano, o que, para mal entendidos da obra do pernambucano das tragédias cariocas, poderia até soar como sinônimo de pornografia. Não era. A verdade é que era, antes sim, um amor asmático. Começou com um suspiro quando se viram pela primeira vez, o ar meio que faltando na hora de compensar um batimento cardíaco errático. Daí por diante, cada vez que se encontravam, era uma sucessão de inspirações profundas e expirações ruidosas, como se amor, e não gás carbônico, fosse o produto daquele simples ato de inalar e exalar ar através da boca e das cavidades nasais.

De simples, para eles, a necessidade fisiológica não tinha nada, porém. Bastava um único beijo para que um ou outro, quando não os dois, fosse acometido de uma crise respiratória terrível, como se sofresse de bronquite aguda. No casamento, em vez de alianças, trocaram bombinhas para asma e, na lua de mel, a única coisa entre eles, no lugar de camisinha, foi a máscara do nebulizador. Mas aquela paixão crônica, nos sentidos cristão e pagão do termo, não deixava de dar um novo sentido à vida, quase filosófico. Viver sem ar é possível, diziam aos céticos. O que é impossível é viver sem amor.

Táscia Souza

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