Estalos

Estalos

Nada de anormal na radiografia de quando começou a andar. Os pais acharam que ele tinha quebrado o pés, os dois pés, tamanho o estalo. Tudo sob controle, disse o médico, deve ser o corpo se acostumando à nova posição.

Bastava pisar e clec!, estalava. Como as pessoas fazem com os dedos das mãos, massagistas fazem na coluna e alguns fazem com o pescoço. Só que o dele era involuntário. Na adolescência o som se agravou e chegou ao incômodo, por isso vivia com fones de ouvido.

Andava com tênis maiores que os pés pra caberem as camadas de meia grossa que abafavam o som, o que não impediu o vizinho de baixo de dizer numa reunião de condomínio que a vizinha de cima andava de salto até de madrugada. Ele, que morava sozinho, acrescentou pantufas às camadas de meia e parou de fazer xixi no meio da noite.

Tinha pernas nervosas, daquelas que ficam balançando quando a pessoa está sentada, por isso era chamado de metralha no escritório. Ficava imaginando o tempo das máquinas de datilografia, quando seria menos notado.

Seu consolo estava em viajar pelo mundo apresentando o show de sapateado que fazia descalço.

Gustavo Burla

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