Com defeito

Com defeito

Jackson. Era esse o nome de seu personal entertainer, estrangeirismo cuja tradução podia ser resumida como “um dos camelôs que vendia, diariamente, filmes piratas na Rua Augusta”. Jackson era refinado. Jackson não comercializava só o acervo de indicados ao Oscar, mas conhecia os exibidos pelo festival Varilux e tinha metade deles entre seus produtos. Sem falar que fora Jackson quem lhe recomendara, num dia em que ela levara de presente para ele uma dezena de cópias já assistidas que não fazia questão de guardar, um documentário nacional sobre Cora Coralina. 

Não foi sem razão, portanto, que ela ficou estupefata quando notou que o DVD de Bohemian Rhapsody que recém-adquirira de Jackson tinha legendas em russo e coreano. Mesmo que ela soubesse alguma das duas línguas, as subscrições se sobrepunham, até se tornarem uma massa indistinta de cirílico e hangul. Confiava em Jackson e na qualidade de seu trabalho. Acreditava, sobretudo, em sua honestidade. Como podia, logo ele, ter-lhe vendido uma cópia tão incompreensível?, perguntou-se, sem nem perceber que a dublagem era em português. 

Táscia Souza

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