Quadrilha

Quadrilha

Foram acostumados a reconhecer o santo pelo formato da fogueira: quadrada para Antônio, cônica para João, triangular para Pedro, nessa ordem. Eram acesas assim, com apenas dias de distância (a expressão de espaço sendo uma medida de tempo comum ali), de modo que, mal se apagava uma, e a lenha para a seguinte já precisava ser providenciada.

A de Antônio era um preparo; a de Pedro, um suspiro. Porque era a de João que realmente importava. Não por ser a do meio, mas por ser o meio. Segundo a tradição, contada de pai para filho à beira do fogo, ele fora originalmente aceso para que José avisasse Maria sobre o nascimento do menino que viria a ser o Batista, filho de sua prima Isabel. Compreensivas, as crianças entendiam, em silêncio, o porquê da grandiosidade daquela fogueira específica: não havia lenha que chegasse para tanto santo numa única história.

Aquele amontoado de madeira, de toras a gravetos, contudo, não seguia nenhum formato conhecido; nem na religião, nem na geometria. Talvez a base tivesse começado um pouco hexagonal, mas logo essa forma de significado oculto foi desfeita pelos tocos encostados quase verticalmente nela, com outros galhos finos de árvores sendo jogados por cima aleatoriamente, montando uma espécie de ninho gigantesco e expressionista. Sem reconhecer a qual santo era dedicada, o povo da vila não sabia se se preparava para o início dos festejos ou se deles se despedia.

Táscia Souza

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *