Todos buzinavam, lamentavam, piscavam para o fusquinha na rua e na estrada. Ele andava devagar, demorava a arrancar, freava bem antes de virar, dava muita seta, que os motoqueiros ignoravam. Lá ia ele, sempre à frente da procissão quando o trânsito fluía, agarrado e fazendo barulho quando tinha engarrafamento.

A rua inteira sabia, e era rua longa, cheia de prédios, comércios e até escolas, quando o fusquinha passava. Lá vem ele, anunciavam quando o motor gritava de longe. E não vai!, reclamavam quando estava agarrado no trânsito, ensurdecedor.

Na tarde da chuva de granizo, os carros novos, elétricos, bonitos, coloridos, nacionais e importados subiram nas calçadas buscando marquises com mais desespero que os pedestres. Tanto era o barulho em meio ao que parecia nevasca que o fusquinha passou flutuando pelo gelo, um espírito cruzando o bairro, em velocidade constante, sem precisar acelerar ou freiar. Simplesmente foi.

Gustavo Burla