Meia roda

Meia roda

Na porta da oficina, o dono do carro mal havia descido quando o mecânico afirmou:

— Carro tá meia-boca, né, chefe?

— Foi herança.

Explicou que precisava de uma revisão, geral mesmo, a começar pelos pneus, que estavam estranhos. O mecânico viu que estavam baixos, quase quadrados, tirou um e levou pro teste.

— Cara, tá sem câmara de ar.

— Sim, eu sei. Ficou com meu irmão. Carro era do meu pai, única herança, nós dividimos.

— Por que não venderam e dividiram o dinheiro?

— A gente cresceu indo pra escola nesse possante, moço, não dava pra vender.

— Mas dividir podia?

— Era o jeito, não converso com meu irmão faz tempo. Dividimos o carro todo. Fiquei com os pneus e ele com as câmaras de ar.

— Vai precisar comprar novas, tem um borracheiro ali virando à esquerda.

— Não posso virar à esquerda, essa parte ficou com ele.

— Pela direita o caminho é mais difícil… Vou com você até lá, a gente compra e volta aqui.

— Vai ter que ir agachado, não tem banco do carona.

Gustavo Burla

Bancarrota

Bancarrota

Parece haver um pacto de silêncio na imprensa, mas deveria estar em todos os noticiários econômicos: depois do boom de vendas provocado pela pandemia da Covid-19, as indústrias de higiene pessoal e de produtos de limpeza têm sofrido intensa baixa e muitos comércios especializados encontram-se à beira da falência. 

A derrocada começou depois de pesquisas colocarem em xeque a eficácia dos produtos em mais de 30% da população. Lenços umedecidos, sabonetes (em barra ou líquidos), sabões (em barra, em pó ou líquidos), detergentes, desinfetantes, álcool 70, sanitizantes, álcool gel, cloro puro… Nada disso é capaz de limpar as mãos de quem votar em Bolsonaro outra vez.

Táscia Souza

69 anos

69 anos

Durante 32 anos falou que morreria do coração aos 42. Foi uma visão.

Ninguém acreditava na visão.

Viveu 32 anos ouvindo: de onde tirou isso? tem histórico na família? como é sua saúde? se alimenta bem? que balela!

Passou 32 anos pesquisando. A metodologia variava com a idade.

No dia em que fez 43 anos, vivo ainda, argumentou com fundamentos: 69!

Gustavo Burla