Olimpo em mim

Olimpo em mim

De repente, as lágrimas surgem. Brotam no coração, que bombeia mais forte e descompassado, e, no instante seguinte, já marejam os olhos. A pele, respondendo aos impulsos, se eriça, enquanto um nó toma conta da garganta. Dias e dias em que esse processo acontece sem aviso prévio. E os culpados são aqueles seres que querem morada no Olimpo. Seres que se expõem, que se superam, que testam os próprios limites, que vivem intensamente a dor e a glória. Seres que não conheço pessoalmente. Alguns poucos, de nome e de vista. A maioria, nem isso. Mas todos me emocionam. Por quê? Porque estão em busca de algo. Porque fracassam, mas lutam. Lutam, sobretudo, contra os próprios limites. Porque se superam. Porque sentem. Porque são outros – e os outros nos plasmam. Ou, pelo menos, me plasmam.

Gilze Bara

Cuidado com os recebidos

Cuidado com os recebidos

Tem Covid até nas coisas, cê viu?

Vi no jornal que tem coisa que precisa ficar mais tempo de quarentena pro vírus morrer.

Vírus não morre, some.

Pra morrer, basta tá vírus…

Tem umas coisas que ficam menos, mas tem outras que é mais.

Aqui em casa fica tudo quatro dias. É o tempo do papelão, foi o que li no jornal.

Quatro dias pra tudo?

Até plástico. Coloquei uma cadeira pra cada dia.

E cê senta onde?

No sofá. Ninguém vem aqui em casa mesmo.

Que horrível isso de não receber, tô doida pra cozinhar pra gente.

Também quero.

Por falar nisso, pediu aquela marmita que te indiquei?

Pedi.

O que achou?

Te falo na quinta.

Gustavo Burla