No inverno de Alfazema, meses depois da partida de minha mãe é que consegui voltar a sua cidade natal. Aquele lugar era um grande desconhecido para mim, sendo a parte mais familiar o jazigo que guardava o corpo de meu pai, que nem cheguei a conhecer e, há alguns meses, o de minha mãe. E que tinha também o de minha avó, mãe dela e o de meu avô, seu pai. Uma família inteira ali e eu, de pé, juntando as coisas e decidindo o que fazer com aquela casa que em nada me soava familiar. Escolher o que ficar, o que deveria ser jogado fora. Revisitar lembranças que nem são minhas. 

Carol, minha esposa, com seu grande senso prático e disposição, já abria as janelas da casa, e ia separando roupas e cobertas que já poderiam ser doadas o quanto antes.  A mim, coube a parte mais difícil, das caixas de documentos e fotografias. Minha mãe saiu daquela cidade e daquela casa depois da morte de meu pai, comigo na barriga e nunca mais voltou. Quando meus avós morreram, ela mesma não quis voltar à cidade, fazendo à distância seus rituais de despedida. 

Minha mãe era uma mulher muito fechada, pouco falava de si, menos ainda sobre o passado. O pouco que eu sabia era que meu pai tivera um mal súbito e ela teve uma oportunidade de emprego em outra cidade e se mudou. Pode parecer pouco, mas para alguém como a minha mãe, essa explicação já era muita coisa. 

Eu sentia o cheiro de broa no forno, misturado com o cheiro de poeira das coisas que minha esposa separava e das dezenas de caixas que estavam no armário, no final do corredor da casa. Para não me sufocar naquele mau cheiro, eu trouxe as coisas para a sala, em meio à bagunça que ali estava, correspondências do tempo em que a casa ficou fechada. Abri as janelas e na primeira caixa já vi a foto dele. Como eu sabia que aquele era meu pai se eu nunca tinha visto nenhuma imagem dele? Mas eu sabia. Aquele sorriso de canto de boca e aqueles olhos pretos cor da noite eram os mesmos que eu via ao me olhar no espelho. No canto da caixa, o envelope do atestado de óbito. Que diferença fazia abrir e ler? Não sei, mas eu abri. E ali não estava o mal súbito, e nem uma “morte desconhecida”, dada quando alguém morre em casa e não é feita uma autópsia. Ali estavam os traumas, os dois tiros, o tempo estimado que ele sangrou até o encontrarem, já sem vida, em um terreno abandonado da cidade. 

— Você não deveria ficar mexendo nessas coisas…

Na hora senti o cheiro do bolo. Era a vizinha, que chegava e trazia a travessa em mãos. Uma senhora com um olhar agradável, passava aquele sentimento de vó. 

— A senhora conhece essa caixa?

— Eu mesma que ajudei sua avó a guardar tudo.

— Estranho… O que eu sabia do meu pai não é o mesmo que eu vejo aqui. 

— Marcos, a sua mãe foi embora daqui pra te poupar disso tudo, não vale a pena agora, depois de tanto tempo, você remexer nisso. 

Naquela tarde eu comi a broa com o gosto amargo de saber o que realmente aconteceu com meu pai, ainda pouco, dentro do todo que eu me questionava e eu queria conhecer. 

Anoiteceu, Carol dormiu de tanto cansaço e eu estava com a broa entalada na garganta. A broa com as palavras de dona Margarete. Meu pai havia sido assassinato. Era uma pessoa alegre, amada por todos, muitos até acreditavam que ele iria concorrer a um cargo político. Em suas fotos ele estava sempre sorrindo. E minha mãe sorria como eu nunca tinha visto ela sorrir na vida. Um homem foi preso. Assalto. Segundo as notícias de jornal que encontrei na caixa, meu pai era somente o homem errado na hora errada. Eu não sei por que, mas eu não podia aceitar que minha vida tinha sido toda predestinada pelo homem errado na hora errada. 

As suas coisas me consumiam. As suas fotografias faziam palpitar o meu pai. Aquele sorriso. Era um homem feliz. Fotos abraçando as pessoas. Era amado. Uma foto beijando a minha mãe. Amava. Em uma foto em grupo parecia começar a fundar um partido na cidade. No verso da foto, o escrito: “O começo de uma nova era. Eu, Marli, João e Zeca”. Este último era o único que não sorria na foto. Mas minha mãe e meu pai pareciam felizes, muito felizes. A foto datava de quase um ano antes do meu pai morrer. O homem errado na hora errada. No local errado. 

A madrugada seguia e eu ainda naquela caixa, com suas fotografias, seus diários. Parte dele estava ali. Do que ele foi, do que ele queria ser. Ele tinha inspirações políticas. Ele queria mudar o mundo. Em suas coisas ele escrevia “a luta por justiça é eterna”. Parecia um lema que ele criou. A luta era eterna, mas ele não era. 

O dito assassino, porque pra mim, eu já não acreditava mais que ele fosse o assassino, confessou tudo na época, ficou preso alguns anos e saiu por bom comportamento. Vivia em uma cidade vizinha. E era pra lá que eu ia, contrariando Carol, que já gritava comigo irritada e achando que eu começava a ficar obsessivo demais. Era a primeira vez que eu tinha contato com a minha história, eu precisava ir até o final. 

No caminho, eu fui percebendo que o trajeto se destinava a um caminho de grande terra, com belos casarões. Um dos últimos era de quem eu procurava. Como que uma pessoa que passou anos na cadeia, acusado de assassinato, não veio de família rica, tem um terreno daqueles? Ao parar o carro, logo vi quem procurava. 

— Senhor Antônio, tudo bem?

— O que posso ajudar?

— Eu sou filho do Pedro. 

Ele me encarou, sua expressão logo mudou.

— O que você quer aqui?

— Me desculpa ser muito direto, mas eu queria entender o que te levou a matar ele. Olhando aqui e olhando para você não me parece um bandido (não que bandido tenha cara, mas eu precisava provocar de alguma forma). 

— A vida mudou bastante… Olha, tudo que eu tinha que dizer eu disse a polícia, eu já paguei pelo que fiz e se você puder ir embora eu agradeço. 

Ao longe ele ainda me encarava, um olhar triste. Não um olhar de quem tinha matado o meu pai. O homem errado na hora errada. No local errado. Pelo homem errado. 

Liguei o rádio quando voltava para casa e escutei enquanto o prefeito respondia críticas sobre a sua administração.

— “Prefeito Zeca, você que voltou à administração da cidade depois de alguns anos, veio com a promessa das casas populares para a população, o que tem a dizer…”

Zeca. O amigo do meu pai era o prefeito da cidade. Se meu pai não pode continuar o seu sonho, pelo jeito alguém pode. 

Ainda refletia na minha cabeça porque minha mãe sairia fugida da cidade, para nunca mais voltar, se o que aconteceu com meu pai foi somente obra do acaso. Naquela cidade parecia que todos sabiam de muito mais, mas não se atreviam a falar. 

Quando eu estava quase terminando a longa estrada de volta, para entrar na cidade, senti algo atingir meu carro, que capotou e começou a queimar. Ainda sem entender muito bem eu tentava sair dali, e assim que me arrastei para fora, ele queimou todo. No hospital, Carol chegou desesperada e disse que no dia seguinte íamos embora ali. Voltamos para a casa, para daqui a poucas horas, com o dia amanhecendo, seguir viagem. 

Ao chegar, avistei as flores em cima do móvel. 

— Carol, que flores são essas?

— O prefeito esteve aqui.

— O prefeito?

— Disse que era amigo do seu pai, que quando ficou sabendo que você estava aqui queria te conhecer.

— Que horas foi isso?

— Um pouco antes de eu receber a ligação sobre o seu acidente. 

Para não ser mais um homem no local errado na hora errada, no dia seguinte eu me despedi de Alfazema. No rádio, o prefeito falava sobre suas ações para a segurança da cidade e contra a impunidade. “É o que eu sempre digo, a luta por justiça é eterna”.

Eu sabia o que se passava ali, mas minha mãe estava certa, aquela não era a minha cidade, nem a minha história. 


Mariana Virgílio