A memória é falha para o autor do comentário e talvez também para o contexto, mas este ela inventou bem se não for o verdadeiro: durante o terceiro jogo da França na Copa de 2002, quando perdeu para a Dinamarca por 2×0 e um Zidane contundido, ainda voltando de recuperação, entrou em campo com tanta proteção em torno da perna que mais parecia um jogador de hóquei no gelo. Naquele momento, surgiu a afirmação: “até hoje só vi três jogadores ganharem copas do mundo: Pelé em 1970, Maradona em 1986 e Romário em 1994.”
Para a frase não ficar deslocada, convém explicar que não era um ganhar a Copa sozinho. Jamais. Imaginem a seleção de 1970 sem aqueles tantos craques. O que ele dizia é que Pelé era o maestro daquele grupo e sem ele não haveria o espetáculo. Foi em meio à discussão sobre orquestração de Zidane na Copa anterior, em que a França tinha ganhado, e o comentarista discordou. Era um bom time, Zidane fazia a diferença, mas não a ponto de ser o principal responsável. Em 2002, se tivesse bem fisicamente, talvez tivesse se tornado esse personagem, mas não foi.
De lá para cá tivemos outros nomes, como talvez possa-se falar do Messi pela Argentina em 2022 ou quase do Gianni Infantini, também pela Argentina, em 2026. No Brasil, nenhum outro, embora outros grandes nomes tivessem surgido, mas sempre compondo um quadrado mágico ou alguma parceria com afinidade, embora sem um maestro específico, mesmo os Ronaldinhos.
O principal destaque entre os que vestiram a amarelinha nos últimos anos talvez tenha sido Neymar Jr. Talvez o Brasil tivesse perdido o jogo contra a Noruega em 2026 ou, mesmo que não, cairia diante da Wonderwall inglesa. Sem vexame. O Bruno Guimarães que perdeu o pênalti no jogo fez tanto quanto Messi e Mbappé, dois dos principais craques da competição. Um jogador de futebol perder o pênalti é uma vergonha sim, pelo salário que ganha. Vai um professor perder uma aula para ver o que acontece! Mas, no comparativo, fez tanto quanto outros.
Neymar não. Seja por contrato, influência de bets ou a mando do pai dele, Ancelotti colocou o menino de um jeito que arremessou o jovem Endrick, que vinha bem posicionado, para fora do jogo. Fez nada além de falta, ganhou cartão e bateu boca com o goleiro que saiu rindo da cara dele depois de não defender o pênalti. Se Neymar, incapaz de jogar até os 40 anos, como outros craques, aposentou depois de completar essas etapas, foi por invalidez. E, ao contrário de Pelé e de Romário, carrega o título inédito de ter sido o jogador que perdeu a Copa pelo Brasil.
Gustavo Burla