Toda a casa do avô tinha cheiro de velho, menos a biblioteca. Toda a casa do avô era aconchegante, a biblioteca era gostosa. A faxineira dizia que limpava tudo do mesmo jeito, deixava tudo sempre aberto e fechava a casa no mesmo horário, a casa toda.
O avô ficava muito na biblioteca, mas não era por isso. Ninguém sabia. Foi a acompanhante quem descobriu. Ela dormia no quarto ao lado (contra a vontade dele, que brincou querê-la na mesma cama, mas não a queria na mesma casa), acompanhava o desjejum repleto de frutas e outras refeições, só não ajudava no banho porque os protestos foram muitos e passou a entrar na biblioteca quando ao ouvir
“Eu sei ler!”
respondeu
“Eu também!”
e ficavam ambos em silêncio por horas a fio dia após dia.
Os caroços de maracujá que ele guardava e por vezes plantava no quintal também eram deixados, secos, nas páginas de que ele gostava.
Gustavo Burla