Diagnóstico

Diagnóstico

O clínico do posto de saúde, desses das antigas, generalista, era seu velho conhecido. Fora ele quem a tratara quando tivera hepatite, ainda criança. E era também ele a pessoa que receitava o número certo de gotas do broncodilatador a serem pingadas no aparelho de nebulização para a aliviar as crises infantis de bronquite. Sabia o único antibiótico possível para tratar as recorrentes amidalites e, depois que as amídalas se foram, as faringites. Prescrevia o descongestionante nasal de melhor efeito contra as sistemáticas crises de rinite ou, pior, de sinusite. Recomendava o colírio mais eficaz para a conjuntivite alérgica. E também a encaminhara, quando a situação fugiu demais de sua alçada, para o colega especialista que poderia resolver de forma mais eficiente o problema da gastrite.

Nem com toda essa experiência, porém, ele foi capaz de identificar a razão dos edemas e eritemas que se alastravam por suas pernas e braços todas as madrugadas, cronometradamente duas horas depois de ela pegar no sono, despertando-a com uma comichão tão insuportável que a fazia querer arrancar os membros a unhas. Que se tratava de um caso de urticária crônica estava óbvio, mas qual a causa se nenhum dos exames de alergia — afora os que confirmaram sua suscetibilidade a elementos que provocavam  bronquite, amidalite, faringite, rinite, sinusite, conjuntivite — dera positivo?

No consultório, no fim do corredor do posto de saúde, ela apenas encarou os olhos velhos e desanimados, enquanto ele lhe informava o diagnóstico, a letra a mais rachando o sufixo, como a intensificar, com a quebra interposta por sua marca plural, a gravidade da doença:

— É só triste.

Táscia Souza

Caiu do céu

Caiu do céu

para Marcos Araújo

Saía do trabalho quando viu a bolinha verde rolando pela calçada. Caído da bela árvore que ornava a passagem, o caroço foi para o bolso do trabalhador e ali repousou por alguns dias, até ser colocada para lavar.

Rodou pelo bolso com todos os produtos químicos e a hélice da máquina, ficou tonto na centrifugação e sob o sol de fim de tarde começou a secar no varal.

Na manhã de domingo, ressaca ardendo como o sol a pino, o trabalhador foi esticar os braços enquanto esquentava a água para o café e descobriu uma árvore diferente no quintal. Uma árvore de calça.

Gustavo Burla

Ele e eu

Ele e eu

para A. e P.

Eu gostava de seus olhos. Verdes. E da maneira como suas pupilas se dilatavam à noite, encarando-me enquanto eu encostava minha perna fria em seu corpo quente. Gostava de como ele não fugia. De como não reclamava de meus pés gelados roçando seu abdômen. Gostava de como, ao contrário, ele se esgueirava sob o lençol para se colar ainda mais a mim. Gostava de como dormíamos nós dois, ali, a noite toda, sua respiração coordenada com a minha. Gostava de como ele abria os olhos sonolentos pela manhã, as pupilas dessa vez bem retraídas, enquanto tocava meu rosto devagar.

Só não gostava de como, depois disso, ele reclamava até que eu levantasse para abrir a torneira da pia do banheiro, onde ele teimava em beber água, e limpasse sua caixinha de areia.

Táscia Souza