Dese(sc)r(i)tora

Dese(sc)r(i)tora

Desaprendi a escrever. Continuo sabendo juntar as letras tal qual ensinado na infância, tendo ciência de que bê mais a é igual a bá, de que “o rato roeu a roupa do rei de roma” não dá conta de todos os sons que o erre pode ter e de que meu nome tem um dígrafo consonantal com o qual a maioria das pessoas não sabe lidar mesmo quando soletro. Também ainda sei pontuar, ou ao menos acho que sei, e quase nunca cometo o deslize de separar o sujeito do predicado, ou de deixar os apostos mais comuns desprovidos da guarda costumeira das vírgulas, a não ser por pura desatenção. Mas escrever, escrever mesmo — aquilo que se faz não com o deslizar do lápis sobre o papel, ou com o pousar dos dedos sobre as teclas, mas com ser tempo mais do que tê-lo —, isso já não sei mais.

Táscia Souza

Ruído branco com bolas pretas

Ruído branco com bolas pretas

Toda tarde subia o som da rua em horários distintos. Apenas o horário mudava, o som era sempre o mesmo. Umas notas num cavaquinho e outras notas na voz do artista. As mesmas, sempre as mesmas.

Tinha letra, do jingle do presidente a Raul, ele tocava todas. Todas iguais. Todas. Iguais. Todos. Os. Dias. Debaixo da janela do escritório.

O trabalho era cheio de problemas, dúvidas, questões, processos, atendimentos e mais atendimentos. Nada fácil, porque tudo com gente. Muita gente, da cidade toda.

Nada pior do que o som que subia com cavaquinho e voz, nem sempre samba, mas de uma nota só.

Pegou a faca da cozinha e desceu. De escada, pra não perder o ritmo. Foi direto até o artista e viu um panda.

“Por que tá vestido de panda!?”

“As crianças gostam.”

Porra, que mundo injusto!

Gustavo Burla

Breve destratado sobre memória

Breve destratado sobre memória

Precisava, até uma data determinada, circulada no calendário, escrever um tratado sobre memória. Mas, para isso, precisava primeiro escrever um aviso recordando a si mesmo de que precisava escrever um tratado sobre memória. Antes, porém, para não se esquecer da importância de registrar o alerta, precisava incluir o remédio para a memória, que estava acabando, na lista de compras. O que até teria sido possível se não tivesse se esquecido de tomar o último comprimido da cartela anterior, que jazeu lá, solitário, único resquício do tratado não entregue.

Táscia Souza