Ouvido absoluto

Ouvido absoluto

Era um fenômeno auditivo raro, explicara o otorrinolaringologista, marcado pela habilidade de uma pessoa identificar ou recriar uma dada nota musical, mesmo sem ter um tom de referência. Fosse uma condição congênita, poderia ter sido um pianista de renome, o primeiro violoncelista de uma orquestra, um exímio violonista. Mas não. Surgira depois de uma infecção qualquer que exigira antibióticos mais fortes do que o esperado e deixara, como sequela, a estranha capacidade de escutar o mundo ao redor — e, o que às vezes era mais doloroso, reproduzi-lo — como um concerto caótico.

Embora talvez fosse tarde para convertê-lo em música, havia, porém, algo de poético no novo dom. Notara a estranheza da aptidão durante a convalescência, quando tudo o que restava era o telefone. A cada vez que ela dizia alô, o leve arquejo que só ele identificava soava em Lá como se ela antes não estivesse ali. Compadecia-se ao perceber em Dó, ainda que ela tentasse disfarçar, um sussurro de tristeza surgida não se sabia de onde. Ou se divertia quando a flagrava se espreguiçar em Ré no primeiro telefonema da manhã, o tom do suspiro denunciando que, ainda deitada, ela se esticava indolente sob o lençol, numa marcha tão lenta que quase era passo atrás.

A melhor sinfonia, contudo, aconteceu ao receber alta do médico. Saindo do consultório, ligou feliz para perguntar se ela gostaria de visitá-lo e a voz ecoou em Si que sim.

Táscia Souza

Vontade de comer bolo

Vontade de comer bolo

Um bolo especial, daqueles de festa, não bolo comum. Desses, fazia em casa, comprava na rua, comia em cafés. Queria bolo de festa, molhadinho, enfeitado, pedindo a vela que nunca punha porque achava nojento ter chocolate com gosto de cera e cuspe.

Era só ligar e encomendar em algum lugar, mas faltava a festa. Lembrou de uma vez que a mãe comprou coxinhas, daquelas pequenas, que vendem o cento, numa sexta-feira qualquer. Estavam deliciosas, talvez as melhores já comidas naquela casa, mas eram coxinhas erradas, porque não havia festa.

Esperou até que surgiu uma data comemorativa. Uma data que tinha todo ano, não um aniversário. Que também tem todo ano, mas tem um número que muda. Era uma data genérica, mas data de festa. Encomendou o bolo. Pediu com o coração, muito maior que o estômago ou o cérebro e marcou hora de buscar no dia da celebração.

Quase beijou o bolo quando viu, resistiu diante das lascas de chocolate, deixou no banco do carona e contentou-se com o cheiro até a hora da batida. Tão feio o acidente que tripas e bolo tornaram-se um só, como ele desejava.

Gustavo Burla

Pensamento

Pensamento

A gente tinha frequentemente a mesma discussão: como funciona o pensamento humano? Ele defendia que a mente pensava por imagens; eu, por palavras. Quando ele imaginava fogo, o que via eram as labaredas subindo, ou uma flecha incendiária a riscar o ar até acertar o alvo e consumi-lo pelas chamas. Eu soletrava a palavra fogo, fo-go, f-o-g-o, experimentava o som dos fonemas, a forma como cada um se moldava na minha língua, e era isso, esse conjunto abstrato de letras e sílabas, que me fazia arder. Até os sonhos eram experiências distintas: os dele, cinema mudo expressionista; os meus, epopeia homérica em mil e duzentos versos hexâmetros e vinte e quatro cantos.

Só concordávamos com a tortuosidade disso. E com a vontade de, ao menos por um segundo, tela preta ou página branca, só atirar o pensamento a esmo, até ele se extinguir.

Táscia Souza