Síndrome Estraga-Prazer

Síndrome Estraga-Prazer

Depois de duas breves horas de espera, o médico chamou Martin ao seu consultório. Sim, breves, já que o rapaz aproveitou o tempo ocioso para finalizar a mais recente temporada do seriado que tanto falam nas redes sociais.

— Bom dia — disse o médico.

— Bom dia, doutor.

— Como está se sentindo?

— Nada bem. Acabo de descobrir que o personagem principal morre no final desta temporada.

O médico se manteve em silêncio, apenas encarando o monitor do computador enquanto digitava alguma coisa.

— Além disso – prosseguiu Martin —, fui na pré-estreia do mais novo filme daquela Casa das Ideias e achei terrível. O herói perde os seus poderes e a cena pós-crédito dá indício de que teremos outro personagem vestindo o seu manto.

Com um olhar analítico e óculos sobre a ponta do nariz, o médico preparava algo a dizer, quando Martin o interrompeu:

— Aliás, aqui está o livro que você me emprestou. Achei tão bacana que já li a trilogia completa, no idioma original mesmo. Pena que o desfecho é terrível, com um meteoro destruindo a base inimiga e o antagonista revelando ser pai do protagonista.

— Uhum, entendo — disse o médico. — Já tenho um diagnóstico para o que você vem sentido ultimamente.

— E o que seria?

— Síndrome do Proferimento Obsessivo de Intenção Latente em Expor Roteiros, ou S.P.O.I.L.E.R.

— E o que eu tenho que tomar para melhorar?

— Vergonha na cara. Duas vezes ao dia.

ADVERTÊNCIA: Ao persistirem os sintomas, um médico deverá ser poupado de spoilers.

Thiago Luz

“Sob o lodo há mais gente que suspira”

“Sob o lodo há mais gente que suspira”

Nas bordas do buraco escuro que é a minha garganta, acumula-se a lama que meu fígado expeliu. Viscosa, ela engrossa minha saliva. Minha língua se contraí em uma tentativa inútil de engolir a mistura pastosa e escura que, grudada nas amídalas, aos poucos me sufoca. Bebo um gole d’água. A lama raleia, se espalha pelo restante da boca, gruda nos dentes e volta a engrossar. Tento cuspi-la, mas minha língua prega-se ao céu da boca e é só com grande esforço que eu separo meus lábios quase colados.

Sorte, quase sorte. Se conseguisse cuspir, todos finalmente veriam as substâncias repulsivas que produzo por dentro. Se conseguisse ingerir, aos poucos a lama entupiria minha faringe, esôfago, estômago e intestinos. Eu me tornaria pesada e meus pés afundariam, não no barro, não em um pântano, mas no asfalto duro da cidade que começa a me devorar.

Fico, portanto, com a lama a meio caminho, nem fora, nem dentro. Na boca. De início o gosto é amargo, repulsivo. Com o contato prolongado, porém, as papilas gustativas se acostumam ao gosto acre e, arrisco a dizer, chegam até mesmo a saboreá-lo. Amargo e amado o gosto da derrota.

Raíssa Varandas