Animal de estimação

Animal de estimação

“Boa tarde, eu gostaria de um animal de estimação.”

“Veio ao lugar certo, senhor, e veja só este último gatinho. Tão esperto, e toda a família já se foi, sobrou só ele.”

“Queria um bicho diferente, mais…”

“Ali temos os cãezinhos… Oh… Tão bonitinhos…”

“Você ouviu a parte do diferente?”

“Temos peixes ali, diversos, maravilhosos.”

“Peixe não tem graça, não dá pra fazer carinho.”

“Ali temos um coala, um panda e um…”

“Não, queria algo mais…”

“Um bicho-pau? Um lagarto? Um ornitorrinco?”

“Isso existe?”

Um movimento na parede, perto do chão, chama a atenção dos dois. O comprador fica vidrado, o vendedor fica vermelho.

“Desculpe, senhor, a gente sempre cuida tanto do nosso espaço. Eu não sei como…”

“Quanto é?”

“Senhor, é uma barata.”

“Quanto custa? É exatamente o que…”

“Senhor, aquilo é uma barata!”

“É um animal, isso aqui é uma loja de animais e….”

O croque-croque do gatinho mastigando a barata suspende a discussão. Destroça sem pressa a barata que movia as antenas cada vez mais curtas dentro da boca do bichano. Engole, vira a carinha, abaixa as orelhas e encara os humanos.

“Quero o gato.”

Gustavo Burla

Feito bala soft

Feito bala soft

Ela é quietinha, diziam. Calada e mansinha assim mesmo, diziam. Diziam: diga alguma coisa dura, menina, palavras não são de morder. Testou o desafio uma vez no ônibus, a caminho da escola. Em vez de triturar letras com os dentes e simplesmente engolir, experimentou chupar uma frase inteirinha, sem mastigar, saboreando sua doçura ácida devarinho. Não se lembra bem se foi um solavanco do ônibus ou não, mas de repente um predicado entalou-se em sua garganta. Não consigo respirar, não disse. Acho que vou morrer, não disse. Não disse: agora mesmo que não consigo dizer mais nada. Só ficou roxa, roxa, chiando de um jeito assustador. A mãe se apavorou. Os outros passageiros também se apavoraram. A mãe desceu do ônibus puxando-a pela mão. Os outros passageiros colaram suas testas no vidro da janela para ver a mãe sacudindo-a e apertando-a e desesperando-se até que fossem um borrão sem ar a distância. Não viram quando o naco de oração desagarrou-se da glote e desceu arranhando, impulsionado por instinto de sobrevivência e saliva. Não ouviram quando o que sobrou na língua foi gosto de suspiro aliviado e silêncio. O roxo aos poucos deixou o rosto e os verbos imperativos demais deixaram de ser sobremesa. Se fosse para ser obrigada a falar a partir de então, que fossem apenas coisinhas macias. 

Táscia Souza

Toda madrugada

Toda madrugada

Exatamente às 4h20 da madrugada ele acordava, olhava o relógio e levantava para beber água. Da janela da cozinha via as luzes dos vizinhos de perto e de longe, reconhecia as que ficavam sempre acesas, percebia as diferenças nas outras, sabia distinguir entre elas em cada noite da semana. Porque toda madrugada arrastava pontualmente a insônia até a cozinha, enchia e esvaziava o copo d’água, observava a vizinhança, ouvia os sons da noite e voltava a dormir. Toda madrugada isso acontecia. Acordava e olhava o relógio: sempre 4h20. Levantava, bebia, via, ouvia e dormia. Toda, mas toda madrugada, por anos, sem exceção. Até que se perguntou por que isso acontecia? Sem resposta, desligou o despertador.

Gustavo Burla