O fio invisível de Ariadne Miralva

O fio invisível de Ariadne Miralva

O que mais havia nas gavetas eram folhas soltas e cadernos preenchidos com prosa, poesia e eventuais diálogos. Numa pasta secreta do HD externo havia outros tantos rabiscos que ninguém lera. Quando era convidada para publicar, sorria gentil e pensava:

– Careço a ironia do Machado.

– Falta-me a crueza de um Rubem Fonseca.

– Está quase um Joyce, but I don’t have… It.

– Sem musicalidade, Vinícius me mataria!

– Cadê meu spleen, Baudelaire, cadê?!

– De que adianta ter regionalismo se não tenho as cores de Rosa?

– Onde estão minhas paixões shakespeareanas nessa crueza rodrigueana?

– Aqui tem Borges e Bioy Casares, mas nada autêntico…

Pela vida afora ela entrou nesse labirinto recolhendo tantos fios que esqueceu de deixar o seu.

Gustavo Burla

Mofo

Mofo

Alô, boa tarde. Não, tudo bem não tá não. Tô ligando pra registrar uma reclamação. Sim, por gentileza. É que eu contratei um depósito de vocês pra deixar guardados alguns itens dos quais eu não ia precisar no fim de ano, mas cheguei agora pra buscar e eles estão em péssimo estado de conservação. Como assim pergunto eu. Me disseram que a sala era à prova de umidade, mas tá tudo mofado. O senhor tá me chamando de mentirosa? Impossível porque não é o senhor que tá vendo a colônia de fungo cobrindo tudo. Tem bolor nas peles, nos pelos. O senhor sabe o que é bolor, não sabe? Pois é. E um deles está com a parte de cima inteira molhada! Pode até não entrar água, mas vocês não tomam providência com a que sai, né? É lágrima, é óbvio. Como assim pele e pelo de quê? Dos meus amigos. Quem não tá entendendo sou eu. Tô falando dos amigos que eu deixei depositados enquanto passava umas semanas sozinha. Tem uns dois parentes também, mas esses são o de menos, já tavam um pouco deteriorados mesmo. Mas eu contrato um serviço pra poder ficar uns diazinhos sem dar atenção e vocês deixam mofar minhas amizades?

Táscia Souza

Hospital

Hospital

A primeira vez que entrou no hospital foi quando nasceu, coisa que sua memória não tinha registrado. Depois, passou toda a infância observando aquele prédio bonito que ficava no alto do morro e a juventude acompanhando os parentes que lá iam quando tinham algo de que se queixar: estava presente nas dores nas costas da mãe, levou a irmã em todas as suas crises de enxaqueca e a tia em todos os porres pós-churrasco. Era a acompanhante profissional. 

Lá, enquanto esperava, descobria primeiro quem nasceu e quem morreu, ouvia as histórias paralelas dos corredores e as brigas de família que terminavam com algum deles deitado ali, na sala de observação perto dela.

Quando chegou a hora de escolher sua profissão não teve dúvidas: virou escritora. E toda semana sentava-se na recepção para conhecer novas histórias.

Mariana Virgílio