Closet

Closet

Melhores amigas compartilhavam o guarda-roupa; a minha e eu, o dicionário. Se queríamos parecer diferentes, ou mais bonitas, ou mais interessantes, ou se sentíssemos um ímpeto profundo de impressionar alguém, corríamos até o armário alheio, às vezes pedindo, outras nem isso, e tomávamos emprestadas palavras. Adjetivos eram nossas peças favoritas, mas os dela costumavam ser mais largos, fluidos, diáfanos. Na adolescência eu pegava um qualificativo seu — por exemplo, incandescente, um de seus preferidos — e com ele fazia os olhares de todos os garotos da sala se perderem na curva que o tremeluzir da pronúncia deixava entrever na minha boca. Os meus, porém, tendiam a ser mais curtos, justos, cingidos, tão apertados que beiravam o desconforto. Cru era um desses que ela apanhava sempre, a letra tornando-se mais marcante ao rabiscá-lo num bilhete sedutor. 

A primeira vez que me vesti para um homem foi com um indômito retirado de seu caderno. A primeira vez que ela se despiu para um foi ao dizer, com uma oração minha, que nenhuma nudez provoca tanto desejo quanto a própria palavra nua. 

Táscia Souza

Cena 2

Cena 2

“[…] nosso amor é tudo”, ele disse. E sentada com as mãos entre as pernas, senti meus olhos se voltarem para minhas mãos, queria ver o filme que minha amiga me indicou, pensei. E suas mãos seguiram as minhas. Suas mãos suadas enlaçaram minhas mãos geladas e ficamos assim, olhos baixos e mãos nas mãos. O silêncio reconfortante que encheu o ambiente se esvaziou quando ele recomeçou a falar. “Eu queria te dizer que… com meus olhos ainda nas mãos, comecei a me perguntar: eu tinha alguma coisa na geladeira? Não lembrei de passar no mercado. Será que eu tinha lembrado de fechar a janela do quarto dele, hoje de manhã? De manhã tinha sol, mas agora está caindo o mundo.

Repassei a manhã: acordei, tomei banho, fiz café. Enquanto secava o cabelo, tomei o café. Tirei o lixo (porque ele nunca tira o lixo), tranquei a porta, desci as escadas. E a janela? Não consigo lembrar da janela… Sentia suas mãos apertarem ainda mais as minhas. “MERDA!”, eu gritei levantando a cabeça. “Eu sei que fiz merda!”, ele me disse. Meu olhar agora parado, vidrava seus olhos que baixavam em direção às mãos. Ele sabia que eu não tinha escutado nada do que ele disse? Retirei minhas mãos das suas. Vendo a chuva lá fora, ambas suavam um suor frio e nervoso. Tentando entender a merda, levantei seu rosto agora inchado. E para sair do escuro da dúvida que crescia em mim, disse “tudo bem, eu também fiz merda”.

Com gestos precisos, ele seca as lágrimas com as costas das mãos. Eu tento um abraço, mas ele rejeita meus braços abertos. Endireita a postura encostando as costas contra o encosto da cadeira e cruza as pernas. Com um olhar cínico pergunta “você me traiu, também?”. E sorrindo para a ironia pensei não, esqueci a janela do seu quarto aberta.

Tassiana Frank

Moço do estacionamento

Moço do estacionamento

Chegava para trabalhar no meio da tarde, com tudo deserto, quase ninguém pela faculdade. Um ou outro chegava para a secretaria ou para a cantina, ninguém da administração, menos ainda da docência ou da discência. Circulava por cada espaço conferindo as vagas vazias que circundavam o prédio da universidade: uma entrada e uma saída.

O sol começava a se esconder e vinha o frio, por vezes uma névoa, quase sempre alunos e professores em carros e ônibus. Cada qual no seu tempo, fosse para estudar, orientar, pedir desconto ou frequentar aula. E ele ali, no estacionamento, vigiando os carros que ocupavam as vagas.

Quando o sinal batia para o fim, estava na última curva do estacionamento. Todos os carros que saíam acenavam para ele, sem saber o nome ou desde que horas ele estava ali. Todos. Todos mesmo. Cumprimentava todo mundo. Depois daquilo poderia ficar a noite toda ali esperando pelo dia seguinte, mas ia para casa e sonhava em voltar para trabalhar.

Gustavo Burla