Hortelã

Hortelã

Me dá alface, por favor?

O ou a?

Tanto faz, a folha verde.

A folha de alface ou a alface?

Viu, é a, me respondeu.

Se fosse o pedaço? O tanto? Um cado?

Me dá hortelã?

O ou a?

Tanto faz.

Agora te peguei, né?

O hortelã. Se alface é a porque é AAAlface, hortelã é o porque é hOOOrtelã.

É com agá.

Sem essa de preconceito com cis ou trans. Me dá.

Gustavo Burla

Sonora para reportagem imaginária engavetada

Sonora para reportagem imaginária engavetada

Emanuel, 23 anos, estudante de engenharia mecânica e consertador de relógios

A maioria desses relógios era do meu vô Elias. Mas alguns fui eu mesmo que comprei. Desde que eu vim morar aqui, na casa deles, dele e da minha minha vó, né?, ele me ensinou a consertar relógios. Era minha brincadeira predileta. Enquanto meus colegas sonhavam com um Lego no Natal, ainda que nenhuma família aqui da rua tivesse dinheiro pra comprar, eu brincava de encaixar pecinhas de engrenagem. Algumas minúsculas. Enquanto o pessoal do bairro se reunia pra brincar de pique-esconde, meu passeio preferido era ir à feira de domingo, naquela parte que parece um mercado de pulgas, sabe?, acompanhar meu vô à procura de relógios antigos que a gente pudesse consertar. Desmontar e remontar. Usar peças descartadas em outros relógios também descartados, fazendo com que eles fossem capazes de marcar o tempo de novo. 

Agora que ele morreu dessa tal de síndrome respiratória aguda, os relógios estão parados, porque ainda não consegui encontrar um ponteiro específico pra horas que passam tão rápido por dias todos iguais.

Táscia Souza

Surto

Surto

Tomou uma taça de vinho antes de deitar. Pensou que o álcool iria ajudá-lo a dormir fácil. Ledo engano! Há dias que seu sono era parco. Sua cabeça estava um turbilhão de pensamentos. A maioria deles atravessava sua mente por causa do trabalho na firma de contabilidade. Os problemas se multiplicavam feito números e seus colegas de serviço haviam se tornado pessoas tristes, que tinham abandonado seus sonhos antigos sem colocar outros no lugar. Faltavam-lhes ideais. 

Mas com ele não seria assim. Ele brigava. Ele bradava, internamente, para não sucumbir. Tinha que haver um motivo maior, uma causa a acreditar, um desejo a se concretizar. Por isso ficava aceso, enquanto as horas atropelavam a madrugada. 

Depois de mais uma noite mal dormida, levantou-se, trocou de roupa como se aquele fosse mais um dia. Pela fresta da janela, o sol entrava manso. Tomou uma xícara de café preto com três gotas de adoçante. Pegou as chaves, abriu a porta, mas não conseguiu sair. Algo segurava seus pés, que não conseguiam ultrapassar o limite entre a porta e o corredor. A cada tentativa de sair, mais pressão ele sentia. Como se alguém muito forte o estivesse agarrando por trás. Ficou assustado. O que era aquilo,  meu Deus? Que sensação era aquela? Seria um espírito maligno, pensou. 

Haveria presenças sobrenaturais naquele apartamento que se manifestavam, justamente, naquela hora. No dia em que decidira dar um basta e mandar, às favas, aquela vida ordinária. Ele estava parado na porta, imóvel, querendo sair, mas não conseguia. De repente, a porta do vizinho, de frente da sua, se abriu. E o homem que ele mal conhecia também ficou agarrado na saída. O outro morador tentou romper a força que o segurava também, mas as tentativas foram em vão. O vizinho começou a gritar, e era possível ouvir gritos dos outros apartamentos. A ficha dele então caiu: o mundo inteiro estava preso dentro de casa. Ele entrou num surto. 

Ficaria para sempre encerrado ali? E a sua caminhada na beira do rio, que tanto gostava? E o sorriso da moça do escritório ao lado do seu? O cheiro da pipoca da carrocinha da esquina? O teatro a que gostava de ir no fim de semana? A gelada com os amigos de vez em quando? O almoço de domingo com os pais? E se nada disso mais existir? E se a vida não voltar ao que antes era? E se ele não puder respirar? E se? Se?… Ele acorda num sobressalto. Estava encharcado de suor. Olha em volta. Era seu quarto. Seu coração desacelera. Ele fica aliviado e volta a ter esperança de que tudo vai passar. É apenas uma questão de tempo para que o mundo recomece e, quem sabe, desta vez, para melhor!

Marcos Araújo