Parto

Parto

Após nove meses — gerando, acalentando, nutrindo aquela outra vida que brotava ali, bem do meio de suas entranhas —, aquela dor era esperada. Começou cerca de doze horas antes, uma contração no ventre que ia e vinha, em intervalos cada vez menores à medida que o momento exato se aproximava. De vez em quando os espasmos se aliviavam, como a lhe dar trégua, mas apenas para virem ainda mais fortes minutos depois, sempre mais frequentes. Por um instante pensou em desistir, achou que não iria aguentar. O suor frio aparecia em minúsculas gotas na testa e no pequeno pedaço de pele sobre os lábios, logo abaixo do nariz, enquanto ela ouvia os passos: de quem estava ali para trabalhar e de quem estava ali só para assistir. Alguém tocou sua mão; um sussurro em seu ouvido desejou-lhe sorte num dialeto próprio. Apertou os olhos, sentindo o último retraimento de seu corpo seguido de uma plena dilatação. Quando os abriu, já sob a luz da sala preparada para o espetáculo, uma personagem nasceu.

Táscia Souza

Inabalável

Inabalável

Apresentou um largo sorriso assim que embarcou no ônibus da linha 605, destino Milho Branco, Zona Norte. Do lado de fora uma chuva desabava sobre a cidade fria, triste, feia em cores gris. Uma fila de veículos perdia-se de vista na Rua Bernardo Mascarenhas. Efeito da grande precipitação e da cancela da via férrea que havia liberado o fluxo segundos antes. Trem e chuva são sinônimos de caos na Manchester mineira.

Tinha lá seus sessenta e tantos anos. O rosto marrom meio encardido era cheio de vincos, cada qual com uma história, às vezes triste, às vezes alegre. A testa era comprida. Minguados fios brancos ainda lhe restavam na cabeça.

Como era de se esperar, teve que ficar de pé. A condução estava lotada. Jovens desatentos plugados em universos digitais ignoraram sua presença. Foi-se o tempo das gentilezas! Como não havia muitas alternativas, aconchegou-se no cantinho perto do motorista. Boa noite disse ao condutor. Não tive como escapar desse aguaceiro, mas daqui a pouco chego à minha casinha e pego aquela sopa de entulho da patroa. Essa vida é sofrida, mas é boa!

Calado, o motorista apenas lançou um olhar negligente em direção ao seu interlocutor. Fiquei mais de quatro horas hoje esperando para realizar um exame, continuou sua narrativa sem perceber o desinteresse de quem estava a sua volta. Debaixo da jaqueta de tecido sintético de cor azul-marinho, sentia calafrios na pele enrugada sob a camisa de malha de mangas compridas encharcada. Estava febril, mas não queria entregar os pontos. Aprendeu a ser forte como um touro desde menino. Essa era uma das imposições que a vida lhe dera.

No hospital a moça disse que hoje não era dia de atendimento de especialidades e que não dava nem pra marcar um exame. O homem que conduzia o ônibus continuava sem querer saber da conversa. Vou ter que voltar amanhã e começar tudinho de novo. Sair cedo de casa pra tentar ser um dos primeiros da fila. Quero realizar esse exame logo. Imagina só, estou sentindo dor e ainda nem sei o que é. O motorista silencioso seguia seu caminho.

Os jovens viajavam por meio dos fones de ouvido sem perceber que o futuro de cada um podia estar ali, escancarado, gritado, sinalizando que o tempo é imperdoável e não faz concessões! Ignorando ser ignorado, sem perder o sorriso, disse pela segunda vez:

— Essa vida é sofrida, mas é boa!

Marcos Araújo

 

Atmosfera literária

Atmosfera literária

Ela sentou no banco da praça como fazia todo domingo. Livro de um lado, sanduíche do outro. Horas ali, sob o sol da manhã de inverno, degustando palavras de clássicos da literatura. Sempre uma leitora voraz, mas não menos romântica.

Naquele domingo, uma surpresa: teve companhia. Na praça cheia de diversos comportamentos, um rapaz sentou ao lado dela, não sem antes pedir licença. Ela se encantou com a educação, a beleza e o tamanho do livro dele.

Ele, mais que ela, mergulhava nas páginas do tijolo que sustentava nas mãos. Ela dividia-se entre Shakespeare e o novo companheiro de leitura. Já se sentia íntima, porque ele se movia vez por outra e ela também. Ela lhe voltava olhares e ele, tímido, também. Ela quase chegou a esbarrar nele, não fosse uma rápida mudança de postura do rapaz.

No auge do êxtase, no clímax daquela narrativa dominical, ela fechou o Romeu e Julieta que não conseguia mais acompanhar e puxou o vizinho pelo braço, olhando nos olhos: eu te amo.

Ele, livro desequilibrado, retornou o olhar profundo, fechou o Guerra dos tronos com o marcador no meio e devolveu: foda-se.

Gustavo Burla