Procura-se

Procura-se

Na infância, aprendeu a procurar os sete erros, o Wally, o brinquedo perdido no fundo do baú e aquela peça específica naquele tom de azul daquele canto do céu do quebra-cabeças de duas mil peças. Procurou saber o que era procurar um agulha no palheiro e procurou a origem dessa procura tão difícil. Procurou também o cometa Halley no céu, mas não achou.

Cresceu procurando a luz no fim do túnel, procurando fontes acadêmicas e procurando a graça em estudar tanto para ter um papel pendurado na parede depois de tanto esforço. E procurou por horas e madrugadas a fio erros de continuidade (que insistia em chamar de continuísmo) nos filmes que via e revia.

Preso em casa por uma pandemia, procurou não perder o controle. Procurou manter a disciplina de exercícios, procurou pratos diferentes para cozinhar nas refeições e procurou não se entediar diante da incansável rotina de telas. E quando achou que não teria mais o que fazer da vida, passou a procurar lives e cursos e reuniões com pessoas diferentes para procurar livros conhecidos nas estantes que serviam de cenário.

Gustavo Burla

Passeio no parque

Passeio no parque

Mais um final de tarde quente, parque cheio, pessoas saindo do trabalho, da escola e para passear com o cão. Sentou em um banco depois de limpar, acomodou a bolsa de trazia no ombro e contemplou os passantes. Cumprimentou outros velhos, assíduos nas mesas de dama ou nos bancos das senhoras que trocavam gorjetas por carícias. Escutou buzinas, motores, vozes e o arrulhar das pombas.

Tirou um punhado de milho da bolsa, que caiu no chão entreaberta. Foi devagar, lançando caroços aleatórios para atrair as aves. Pelo canto do olho vigiava a bolsa e lançava frações do punhado, até acabar. Logo estava cercado por vários tons de cinza, mostrando os dentes amarelos enquanto via uma pomba esperta entrando para buscar mais comida na fonte. Com inesperada presteza, fechou a bolsa, pousou-a no ombro e foi para casa jantar.

Gustavo Burla