Conselho de mãe

Conselho de mãe

Não vá fazer bobagem, menino! – foi a última coisa que ouviu a mãe dizer.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando saiu pra brincar na rua com os vizinhos.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando entrou na prova do vestibular.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando viajou pro intercâmbio.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando foi contratado.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando se casou.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando trocou de emprego.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando entregou a ele os remédios para a eutanásia.

Gustavo Burla

Legítima defesa

Legítima defesa

Ele era engenheiro. O que significava que tivera aulas de cálculo o suficiente para saber determinar a trajetória parabólica de um projétil lançado da beira de um penhasco sobre um terreno plano e horizontal, contanto que lhe informassem as dezenas de metros percorridos pelo projétil desde o instante de seu lançamento e a altura máxima acima do terreno atingida por ele.

O outro dado necessário para a operação — em qual distância acima do topo do despenhadeiro estava o projétil quando foi lançado — ele tinha: um metro e oito centímetros, exatamente a altura dos braços do filho mais novo ligeiramente elevados na direção dos ombros e colocados diante dos olhos, a segurar a escopeta que o pai fazia questão de manter. Dizia: pra gente se defender.

O filho se defendeu. Dele.

Táscia Souza

 

Subtexto

Subtexto

Meu estômago revira. Estalo os dedos da mão esquerda. Uma nova revirada no estômago. Estalo os dedos da mão direita. Os lábios se contraem e ao lado de cada um dos cantos da boca surgem linhas finas precoces para os meus 28 anos de idade. As mãos, de dedos violentamente estalados, começam a suar. Seco as palmas na calça. As mãos voltam a suar.

Vou para casa, tomo um banho, lavo todo o suor do corpo. Juro nunca mais voltar ao teatro.

Raíssa Varandas