Sol

Sol

Chegou tímido, mas feliz. Afinal, chamaram por ele. Por lá ficou, sorrindo e alegre, durante dois dias. No terceiro, ouviu alguém dizer que já estava demais.

– Que calor é esse, gente! Podia cair uma boa de uma chuva!

Ficou triste, mas não se abateu. As críticas ficaram mais ferozes.

– As represas estão secando, precisamos de chuva!

Assim ele fez, apesar de não se sentir culpado. Saiu de cena, passou a bola, chamou São Pedro. Choveu, choveu, choveu. Chamaram por ele de novo. Veio feliz e sorridente.

No dia seguinte, porém, já estavam reclamando. Desistiu. Foi fazer terapia.

– Como era o relacionamento com seus pais na infância?

Ele não lembrava. Finalmente percebeu que, por não ter lembranças de quando era criança, tinha dificuldades em lidar com a infantilidade do ser humano. Voltou confiante. Afinal, chovia há duas semanas.

Mal trabalhou por 10 horas e contabilizou 11 vezes seguidas em que alguém reclamou do calor. Nem os vendedores de picolé aliviaram, pois seus carrinhos não davam mais conta de gelar a tempo.

Fez as malas, saiu de férias para espairecer.

Choveu durante três anos.

Paloma Destro

Costuras

Costuras

O pai queria que ele fosse piloto de corrida para passar pelos adversários como se estivessem estacionados.

A mãe apostava no talento para agregar amigos como um caminho para a política.

O tio garantia estar diante de um futuro intelectual toda vez que articulava teorias.

Optou pelos bordados da avó e tornou-se escritor.

Gustavo Burla

Ponto de referência

Ponto de referência

para Márcia e Lúcio

Ele conhecia as cidades pelas quais passava por seus botecos preferidos. Em Três Moinhos, o Moinho d’Água, que servia a mais famosa porção de angu frito, feito com fubá da roça, da região. Em Santo Antônio da Saudade, o Saudade Danada, de cuja cachaça dourada sentia exatamente o que o nome do estabelecimento previa. Em Caldas Quentes, lembrava que queimara a língua duplamente com a mistura de aguardente com caldo de feijão.

Numa viagem, porém, o carro achou de estragar bem na entrada de um vilarejo onde não havia um botequim sequer. Restaurante tinha. Apesar do tamanho diminuto da vila, havia até um gastrobar, como estava na moda nos grandes centros. Mas boteco, que era o que interessava, não. Nenhuma mesa ostentando uma marca popular de cerveja, nenhuma estufa com carne ou batata assada, nenhum comerciante atrás do balcão com um palito de dentes na boca e a caneta atrás da orelha.

Frustrado, enquanto aguardava o único mecânico do lugar sair da missa para avaliar seu veículo, entrou na igreja, lotada, bem no meio da comunhão. O conserto não demorou muito, mas a estadia rápida ficou marcada pela melhor porção de hóstia com vinho de padre que experimentou.

Táscia Souza