Dancinha

Dancinha

Foi na aula de educação física que o professor quis ensinar a dancinha da moda. Trabalhava quadril, pernas, braços, atenção e disciplina.

— Braços rentes ao corpo! Cintura prum lado! Braços pro outro! Ritmo! Ritmo!!!

O gordinho batia o braço na barriga ou na bunda empinada. Tinha ritmo, mas não a tangência certa. Era empenho puro, mas insuficiente. Chorou.

O professor laçou-lhe os olhos e foi direto:

— Emagreça ou desista.

Em casa, quando não havia mais como se desidratar, diante do espelho criou um estilo próprio e foi ser gauche na vida.

Gustavo Burla

Achados e perdidos

Achados e perdidos

Todos os dias alguém aparecia à procura de algo. E o velho senhor recolhia tudo. Brinquedos esquecidos na caixa de areia da praça do bairro. Molhos de chaves deixadas desavisadamente no balcão da padaria. Carteiras caídas dos bolsos de passageiros dos ônibus lotados. Documentos encontrados nas sarjetas.

Mas as prateleiras da pequena repartição também estavam abarrotadas de coisas que ninguém procurava. Desejos não realizados. Esperanças frustradas. Amores desfeitos. Sonhos vencidos. Corações despedaçados. Identidades perdidas — não essas de papel plastificado, com um número a ser decorado, mas aquelas feitas de pensamentos e lembranças — de quem, num repente, não sabia mais quem era.

Táscia Souza

Fiat lux

Fiat lux

O teatro é construído sobre um tripé:

o elenco estava afinado, entrosado, ensaiado, tenso, convicto de uma boa estreia.

o texto era premiado, conhecido, aclamado e tinha roupagem inovadora.

o público ocupava as cadeiras dos ingressos numerados vendidos meses antes.

O iluminador apagou a plateia, ouviu as cortinas se abrirem e ficou lá, imóvel, sem verbo enquanto o espírito de deus voltava a pairar sobre as águas.

Gustavo Burla