Quatro amigas e uma cartela de bingo

Quatro amigas e uma cartela de bingo

para minhas companheiras de bingo e de luta

As quatro amigas se debruçaram sobre a cartela de bingo como se daquilo dependessem as próprias vidas. Nas rodadas anteriores haviam estado desanimadas, a dificuldade de fechar as quadras e as quinas exigidas fazendo com que o interesse pelo jogo diminuísse um pouco mais todas as vezes que um número saía e não estava ali. 

Aquela cartela, no entanto — a décima e última delas, na única rodada em que, para ganhar, era preciso cartela cheia —, preenchia-se como mágica. A cada dezena marcada com um X pela primeira amiga, as outras três se entreolhavam em crescente entusiasmo, na expectativa da chegada de uma sorte que nos últimos tempos andava sumida, quem sabe fugida para longe de braços dados com a esperança. Talvez voltassem ali, foi o que cada uma pensou, sem coragem de dizer para as outras, a não ser em silêncio, as palavras reduzidas a arqueares surpresos e infantis de sobrancelhas que deixavam ainda mais abertos oito olhos recém-brilhantes. 

Quando faltava apenas um número, porém, não tiveram coragem de pedi-lo em voz alta, como fazem os bingueiros costumazes ao ficarem pela boa. O prêmio saiu para o casal ao lado, enquanto o 64 delas permaneceu em branco, o único quadrado do papel sem um X riscado de caneta azul. 

Com alívio, sorriram. A premiação não veio, mas o golpe também não. 

Táscia Souza

O torcedor

O torcedor

Torcia no futebol da rua, nos coletivos na escola e nos jogos que via pela televisão. Nas corridas, escolhia um competidor e vibrava. Em reuniões de amigos pra jogar videogame, jamais segurava o joystick. Era torcedor.

Era ver a possibilidade de alguém ganhar e lá estava: dedos cruzados, pé de coelho em punho e começava a fazer contas. Apuração era sempre ótimo: escola de samba que não tirava 10 era triste, candidato que subia e descia no percentual do aplicativo era angústia.

Na última eleição, no entanto, terminou o primeiro turno com medo de não poder torcer mais se continuasse daquele jeito. Precisava virar a partida. Tornou-se jogador.

Gustavo Burla

Sabiá

Sabiá

O sol ainda não havia raiado quando o canto começava. Ela, menina da cidade, não reconhecia qualquer espécie de pássaro e não saberia apontar um sabiá-laranjeira se visse um. Mas, despertada fora de hora toda madrugada pela cantoria, identificava aquele sem vê-lo, só pelo ouvido, porque sua música era igualzinha à melodia triste que de vez em quando soava pelas caixas de som do velho toca-discos do avô, uma cuja letra falava de alguém com saudade de casa.

Quando finalmente amanhecia, porém, e o trinado dava lugar ao batucar do bico na vidraça da janela, ele não entrava, mesmo depois que ela a abria num ato de desespero para que ele a deixasse dormir. Custou-lhe entender que a casa da qual o sabiá sentia falta não era a sua. Que o que ele procurava bicando o vidro era outro, semelhante a ele. Na solidão do quarto que ia sendo iluminado pelos primeiros vislumbres do alvorecer, ela tinha pena, porque sabia que esse tipo de lar era bem mais difícil de encontrar.

Táscia Souza