Em bloco

Em bloco

Hot pant: ok. Meia arrastão: ok. Sombra neon: ok. Sete potes de glitter (nas cores do arco-íris): ok. Garrafa de Catuaba Selvagem: ok. Lenço umedecido no caso de uma emergência urinária: ok. Resposta afiada para babacas de plantão: ok. O resto da letra chiclete que, para o próprio desespero, teimava em brotar na cabeça a cada minuto: ok também.

Faltava só a pochete. Não a do dinheiro trocado para a cerveja, já muito bem guardado (ok ok ok), mas uma que se camuflasse sob os olhos, por dentro das pálpebras, deixando bem guardadas as lágrimas que teimavam em lhe estragar a fantasia.

Táscia Souza

Déjà vu de si

Déjà vu de si

Como a situação beirava o insuportável, ela cedeu e foi ao médico.

– Em que posso ajudar?

– Abri a caixa de Pandora, ou melhor, a minha caixa de fotografias, do tempo em que ainda revelávamos e imprimíamos.

– Sim, e o que houve? Crise de rinite?

– Só se for rinite no coração, doutor… Não estou suportando olhar as fotos e lembrar dos momentos que elas eternizaram.

– Mas por quê?

– Porque eram momentos que estavam esquecidos na minha memória. E eu tô puta com isso. Como havia esquecido tudo que vivi e senti? Como consegui ligar o piloto automático e simplesmente seguir sem lembrar??? Minha memória me traiu. Duas vezes. Primeiro, por esquecer tanta coisa da minha vida. E, depois, por lembrar. Como vou continuar vivendo lembrando de tudo aquilo, sentindo um pouco do que senti em cada momento retratado?

– Isso é simples. Toma este psicotrópico. Duas vezes por dia, mas nunca em jejum. Ele vai deixar sua memória anuviada. Nada de lembranças!

– Por quanto tempo?

– Pra sempre.

Gilze Bara 

Intensidade

Intensidade

Vivia hiperbolicamente. Tudo o que decidia era sempre muito. Quando resolveu correr, foi maratona; nadar, do Leme ao Pontal; beber, só galões e barris; amar, uma multidão; viajar, volta ao mundo. Parecia estar sempre Em busca do tempo perdido (que, aliás, leu em um Carnaval).

Um dia resolveu dormir. Primeiro, comeu feito um urso antes do inverno. Tomou banho como se a caixa d’água do prédio fosse sua. Ajeitou a cama, afofou fartamente o travesseiro, deitou e adormeceu. Ao acordar, percebeu que, se tivesse trabalhado, estaria aposentado, mesmo depois da reforma da Previdência.

Gustavo Burla