Juizado de Pequenos Medos

Juizado de Pequenos Medos

Naquele tempo a gente ia acumulando um grande arquivo. Um arquivo kafkiano. Um arquivo escuro, quente e que sufocava quem precisasse entrar e quem dele não conseguisse sair. Um arquivo desorganizado que se estendia de um edifício a outro e a outro e a outro. Um arquivo de processos começados e nunca concluídos. Um arquivo de causas e casos empilhados por corredores estreitos. Labirintíticos. Intermináveis. Um arquivo sinuoso que desembocava em órgãos inesperados — não escritórios ou secretarias de tribunais, mas cérebros, estômagos, fígados.

Nas estantes do arquivo, nas prateleiras, nas pastas, nas células, a gente amontoava cada um dos nossos mais ínfimos desesperos.

Táscia Souza

Pai de quarentena

Pai de quarentena

– Pai, estou com fome.
– Lave seu rosto.
– Já tomou o seu café da manhã?
– Pai, me empresta o celular?
– Hoje, quero ver um filme de comédia!
– Já está na hora da aula on-line?
– Ainda não.
– E o dever de casa?
– Você me ajuda?
– Pai, estou com fome.
– Já arrumou sua cama?
– Vem almoçar.
– Pai, me empresta o celular?
– Só depois que escovar os dentes.
– Pai, quero falar com a vovó.
– Pai, estou com fome.
– Mas você acabou de almoçar!
– Pai, me empresta o celular?
– Liga o computador. Já está na hora da aula.
– Pai, brinca comigo?
– Vamos jogar adedanha?
– A-de-da-nha!!!!!!!
– F
– Fiona
– Flora
– Florianópolis
– Finlândia
– Ferrari
– Fusquinha
– Figo
– Framboesa
– “Faça a coisa certa”
– “Fala sério, mãe!”
– Foca
– Filhote
– Isso não vale!
– Pai, estou com fome.
– Não gosto de café com leite!
– Pai, vamos brincar?
– De novo? Deixa para amanhã!
– Pai, me empresta o celular?
– Descarregou.
– Pai, enche o pneu da minha bicicleta
– Amanhã.
– Pai, estou com fome.
– Já?
– Não gosto de novela.
– Pai, me empresta o celular?
– Está na hora de dormir.
– Ah, pai!!!
– Posso deixar a luz acesa?
– Pra quê?
– Vou ler um pouco!
– Beijo?
– Smack!!!
-Te amo!
– Também!
– Zzzzzzzz
– Bom dia!
– Pai, estou com fome.

Marcos Araújo

Todos

Todos

Ah, que admirável mundo novo é este em que todos podem sair e respirar o ar puro, em que todos podem sair para se encontrar nos parques e nas praças, em que todos pensam na coletividade como um bem maior, que inclui saúde, educação e bem-estar, um mundo em que todos somos pessoas boas e dispostas a ajudar com uma mão amiga e uma palavra de apoio, todos acreditamos que uma humanidade deve trabalhar junta para o desenvolvimento do planeta, todos voltados para a preservação da natureza, da identidade de cada um, das diversidades culturais, todos vivendo mais que sobrevivendo em meio a todas as formas possíveis de moradia, todos tendo direito à alimentação, todos podendo respirar arte e entendendo que política é tudo isso, é todos nós. Todos, menos os outros.

Gustavo Burla