Não acaba

Não acaba

Nas noites de encontros dos amigos eu me remoía antes de começar o ritual. Criei o ritual pra automatizar tudo, pra lidar com a falta de prazer em ter que sair de casa, em ter que sair com eles.

Banho, roupa, sorriso e bar. Com música, pessoas falando, violão tocando. Pra quê!? Também conversei, cantei, me diverti como tinha que ser. Se fosse diferente, fariam perguntas que eu não queria responder.

Gustavo Burla

Texto elaborado juntamente com os participantes da oficina “Arquétipos e criação de personagens” realizada no Palavre-se, Tenetehara, agosto de 2019.

Corda Mi

Corda Mi

Sorrio. Primeiro para a moça de cujo nome não me lembro, mas em cuja festa de aniversário vim parar. Desejo felicidades e sorrio. Sou apresentada a seus amigos e sorrio. Aceito o copo de cerveja já meio quente, meio mijo que alguém desconhecido me estende e só rio, porque a outra opção não existe.

No pequeno palco do bar alguém canta e penso em dizer ao violonista que a corda Mi está perceptivelmente desafinada. Em vez disso, espero o fim da canção para imitar os outros e bater as palmas de minhas mãos repetidamente uma contra a outra, três vezes, quatro, cinco, o suficiente para ser educada e o homem da corda Mi desafinada, agradecido, sorrir para mim.

Táscia Souza

Texto elaborado juntamente com os participantes da oficina “Arquétipos e criação de personagens” realizada no Palavre-se, Tenetehara, agosto de 2019.

No bar

No bar

Era uma quinta-feira chuvosa, resolvi parar num barzinho e ouvir uma apresentação do recital de violão do meu professor.

Não conhecia ninguém e decidi sentar-me à mesa ao lado do músico. Como não bebo, pedi água e fiquei degustando aos goles quando, de repente, vi tudo rodando. Suor frio escorria pelo meu rosto e a face começou a ruborizar. Um sentimento de raiva aflorou e comecei a quebrar tudo.

Tentaram me prender, me segurar, mas minha força era tanta que derrubei muitas pessoas. A ira foi indo embora e o choro surgiu ininterruptamente. Até que uma pessoa apareceu e me levou dali para uma praça.

Me acalmei daquelas variadas emoções e o senhor que me acolheu explicou que colocaram algo na minha água.

Resolvi me despedir do senhor e agradecer-lhe. Segui o caminho de volta ao bar e retomei meu lugar ao lado do músico. Fiquei envolvida pela melodia, que encheu minha alma de encantamento.

Sheyla Mattos

Texto elaborado na oficina “Arquétipos e criação de personagens” realizada no Palavre-se, Tenetehara, agosto de 2019.