E nunca mais usou óculos

E nunca mais usou óculos

O grau aumentava exponencialmente e ele já temia a renovação da carteira. Orou, fez mandingas, dobrou o dízimo (vigézimo?) e foi fazer o exame.

Sentado diante da cartela com letras e números, prestes a ter os círculos de ferro com buraquinhos apoiados no nariz, ouviu o chamado. A secretária abriu delicadamente a porta requisitando o oftalmologista para um esclarecimento.

Como viu funcionar em um filme, o paciente correu até a cartela de letras e leu o nome do fabricante, no canto inferior esquerdo, em letrinhas miúdas.

Lentes no lugar, aparelho regulado no grau, disse as palavras miúdas e saiu de lá sem receita, sem óculos, sem precisar comprar lentes de contato de tempos em tempos.

Pegou o carro, a família e foram viajar para comemorar.

Gustavo Burla

A última aglomeração

A última aglomeração

Na impossibilidade de receber os amigos com os quais costumeiramente compartilhava festas, resolveu se reencontrar com aqueles que haviam ficado perdidos no tempo. Estava ali o garotinho sardento de nome Emanuel, ainda com a mesma cara de criança travessa, sempre responsável pelas artes que a mãe descobria. E estava a bonita menina Luísa, em cujo rostinho de porcelana havia feito um arranhão permanente, pelo qual molhara os babados do vestido dela suplicando desculpas. E estava também o Sr. Medo, que o pai insistira para que fizesse seu ouvinte, porque, contanto que não a paralisasse, poderia lhe soprar bons conselhos.

Foi ele quem lhe sorriu quando engoliu o último pedaço de ar e se despediu dos companheiros imaginários da infância. 

Táscia Souza

Filhos

Filhos

Um dia vi um filme americano de suspense em que o vilão, depois de fazer tudo o que fazem os vilões de um filme de suspense, morre. Na continuação, um grupo de jovens se vê às voltas com um terror do mesmo tipo e quem é o assassino? O amigo que tem o nome do vilão+filho, algo como vilãoson.

Um dia parei para comprar uma cachaça em Touros e falei que era para o meu pai. O vendedor falou que ia gravar um vídeo para o meu pai e perguntou o nome dele. Disse que era Eduardo e o vendedor falou que era meu irmão, se chamava Edson.

Um dia conheci um rapaz chamado Tinderson…

Gustavo Burla