Teatrinho

Teatrinho

Um pequeno espaço na entrada de uma casa antiga é o palco.

No palco: cadeira, bolsa, baú.

No baú: livros, cartões de visita, panfletos, maletinha.

Na maletinha: ingressos, dinheiro, bloco, caneta.

O papel: bilheteira. Personagem principal.

As falas: Boa noite, Tudo bem?, Quinze reais a meia, trinta a inteira, Por nada, Bom espetáculo. Há muito espaço para improviso.

Os figurinos variam tanto quanto os parceiros de cena.

Meia hora de apresentação.

8h35. Fim do espetáculo.

No mesmo horário começa outro, mas é só o complemento.

Louise Nascimento

Velhório

Velhório

A primeira a antecipar em lamento o abandono na velhice foi a avó. O neto disse que cuidaria dela quando precisasse, fosse em casa ou num asilo, que visitaria diariamente. Ela seguiu a vida tranquila. E longa.

Depois veio a tia, solteira, entendendo o que lhe aguardava. De novo ele se prontificou a acompanhá-la em carinho e carências.

Outra tia, com filhos morando longe, anos depois também pressentiu o que lhe poderia ocorrer e novamente foi ele quem se prontificou.

Assim seguiu a vida, por anos, prometendo às queridas, de todos os graus, cuidar delas na velhice.

Quis o destino que um infarto na flor dos 42 anos o levasse antes. Em torno do corpo, um coro de velhas chorava como viúvas do futuro promissor.

Gustavo Burla

Sonhos

Sonhos

Aos cinco anos, seu sonho era que os primos maiores a deixassem participar pra valer do pique-esconde.

Aos dez, era ser um dos Power Rangers e não apenas a princesa na brincadeira.

Aos quinze, era passar em primeiro lugar no vestibular, que faria dali a dois anos.

Aos vinte, era se formar logo na faculdade e começar a trabalhar num ótimo emprego.

Aos vinte e cinco, era ganhar um salário alto e ser bem-sucedida na carreira

Aos trinta, era voltar a ser café com leite.

Táscia Souza