Até que ponto?

Até que ponto?

Ela acordou e a casa estava uma bagunça. Tudo fora do lugar, revirado. Queria tanto um café, mas não se sentia animada a vasculhar pra onde teria voado a chaleira na hora em que a jogou em cima dele. Suspirou.

As crianças acordaram, e lógico, assustaram-se. Perguntaram. Elas não precisavam saber que o pai tinha reaparecido, querendo usá-la corporeamente e monetariamente. Teve de trancá-los no quarto para que não presenciassem a cena. Arrumou os filhos rapidamente. Saiu.

A vizinha deveria estar esperando sua saída há horas. Lançou-lhe o típico olhar de fofoqueira que já tem a história completa, mas talvez consiga uns detalhes para apimentar e tornar o relato verídico. Ela não precisava saber que ela deu um soco no marido e um chute nas partes baixas. Abstraiu.

Deixou os meninos na casa da mãe. Assim que eles estavam distraídos com a TV, a mãe, preocupada, perguntou o que tinha acontecido. As olheiras, o cabelo desgrenhado… indicavam algo. A mãe não precisava saber que estava com medo, assustada, preocupada. Fugiu.

No ônibus, sentou-se perto de uma amiga-conhecida. A vontade de desabafar era enorme, mas a moça só falava dela, do noivo, dos arranjos… Ela não precisava saber que seu casamento era uma tristeza e desanimar. Riu.

Já no trabalho, a patroa queria explicações pelo atraso, ameaçava, queria briga. Ela não precisava saber que quase fora morta daquela vez, que mal se agüentava em pé. Varreu.

Mais tarde, em casa, a polícia já estava no portão. O marido a acusava de agressão. Deveria ir pra delegacia. Os filhos foram os primeiros a defendê-la. Disseram que o pai era o malvado, pois ele batia na mãe, fazia-os sofrer. A vizinha já foi logo anunciando que seria testemunha a favor dela, pois sensibilizava com aquela mulher batalhadora que sofria na mão de um traste. A mãe foi logo buscando uns papéis antigos que comprovavam a prisão do genro anos antes. Era um mau-caráter. A amiga de ônibus entrou na casa e mostrou, indignada, como ele tinha destruído tudo. Aproveitou e passou um café pra sensibilizar os tiras. E a patroa, inexplicavelmente, aparecera dizendo que seu advogado estava a caminho e que aquilo era um engano.

Ninguém precisava saber. Todo mundo sabia.

José Eduardo Brum

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