Destemido e precavido

Destemido e precavido

Ton era apaixonado por jornais. Viciado, acordava cinco e meia e se arrumava especialmente para receber os ocorridos do mundo. Sentava-se na varanda e esperava que os três embrulhos voassem até o quintal. Enxergava os pacotes como bombas capazes de modificar sua vida.

Lia três jornais: um local, um regional e um nacional. Leria quatro se entregassem um exemplar internacional. Quando me refiro a ler, ele lia mesmo, do início até o fim. Não dispensava nada. O único parceiro da empreitada era o dicionário. Dispensava café, bolinhos, biscoitos, telefonemas. A manhã era dedicada à informação.

Os conhecidos e vizinhos afirmavam que tanta notícia ia matar Ton. Ele não acreditava nisso, até que descobriu uma úlcera monstruosa ocasionada pela tinta preta que se misturava com a saliva, instalava-se nos dedos, passava para a boca e fazia estrago no estômago. O médico foi categórico: a cura era deixar de ler. Ton tentou remediar. Comprou luvas, mas não conseguia se concentrar sem o contato físico com os papéis. Pensou em criar uma proteção de látex para a boca.

Quase desistindo do hábito de anos, descobriu um jeito de se encontrar com as notícias: pela internet. Mas antes de fazer as três assinaturas virtuais dos periódicos costumeiros, mais o internacional, foi ao oculista, calibrou os óculos, comprou colírios, mouse ortopédico e cadeira adequada para a coluna. Não seria o próprio corpo que o impediria de ser atingido pelas notícias.

José Eduardo Brum

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