Perversão

Perversão

A cada vez que abria um livro, ela reforçava a noção de que tinha tendências sadomasoquistas. O lado sádico vinha com as obras que considerava chatas, sem admitir sequer para si mesma que o fato de não conseguir se envolver na história se devia, bem no fundo, a um entendimento meio precário do que estava realmente escrito. Nessas ocasiões, ao contrário do melhor amigo CDF, que lutava heroicamente para chegar à última linha de um romance mesmo quando o estava detestando, o sadismo dela a fazia fechar o volume com requintes de crueldade, largando o marcador no meio como uma faca partindo o coração do autor, e devolvê-lo à prateleira com um sorriso transbordante de algolagnia.

O masoquismo, paradoxalmente, emergia dos livros bons, muito mais que bons, como se ter prazer na leitura causasse, ao mesmo tempo, um sofrimento intangível. Sentia tremores ao passar as páginas, querendo e não querendo que a narrativa acabasse, numa agonia mórbida. Por vezes era acometida por suores frios só de pensar que o livro em suas mãos, escrito para ela, não lhe pertencia; e a imagem de outros o lendo fazia com que a vista se tingisse de uma mistura ocre de inveja e ciúme.

Nenhum padecimento, contudo, comparava-se ao que sentiu ao ler aquele livro. A cada frase, a cada vírgula, a cada reticência… tinha a sensação de que sua carne inteira estava sendo chicoteada pela prosa causticante do autor. Vergões vermelhos marcavam sua pele até sangrar sobre os capítulos e o coração surrava o peito de uma forma que a deixava sem ar. As horas passavam e ela lia. Os dias passavam e ela lia. Os mundos passavam e ela lia. E machucava-se a cada letra que cortava o papel.

Naquela madrugada, quando leu a última palavra da última página, seu último pensamento, com um sorriso nos lábios, foi nunca mais ser capaz de sentir tanta dor.


Táscia Souza

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