Amanhã???

Amanhã???

Nunca deixe pra amanhã o que você pode fazer hoje, ele lhe dizia e ela continha o impulso de mostrar-lhe a língua. Sentia-se como que criança novamente, quando o pai, sempre severo, não a deixava brincar enquanto não terminasse o dever de casa passado pela professora naquela tarde, mesmo que não precisasse entregá-lo no dia seguinte. Nunca acreditara quando as pessoas diziam que as mulheres procuram maridos parecidos com seus pais, mas, naquele aspecto pelo menos, tinha que se render. O homem que dormia ao seu lado nunca a deixava curtir a cama até mais tarde, nem levantar e ficar de pijama pelo resto da manhã, nem se sentar para ver um filme no sofá da sala carregando consigo o edredom enquanto, no quarto,  a cama permanecia desarrumada. Pasmem: sequer lhe dava um beijo de bom-dia se ela, primeiro, não se sentasse, pijama tirado e rosto lavado, pra tomar o café.

Esse tudo pra já não era seu ideal de bem-estar. É claro que, sempre que passava apertos com trabalhos free lance que precisava entregar de última hora depois de passar meses deixando-os de lado, tomava como resolução de ano-novo que nunca mais deixaria nada pra amanhã. E realmente cumpria, pois bastava a virada do calendário e o surgimento de trabalhos seguintes para que ela adotasse uma nova filosofia: nunca deixar pra amanhã o que se pode fazer depois de amanhã.

A rebeldia silenciosa foi se acirrando com o tempo e, assim, sempre que o marido não estava olhando, ela deixava. Pra depois e depois e depois. Se ele saía cedo, desfilava de pijama pela casa pelo tempo em que ele estivesse fora, sem beijo ou café, só com tempo de ler sob as cobertas ou assistir a um filme qualquer comendo chocolate sobre o sofá. Os trabalhos, obviamente, acumulavam-se, mas ela, àquela altura dos anos, não saía de sua letargia preguiçosa e libertadora nem quando os prazos finais se apertavam. Pra que deixar pra depois de amanhã quando se pode, simplesmente, deixar pra lá?

Táscia Souza

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