Piano de cauda

Piano de cauda

– Peraí, motô, tá entrando um piano!

Os demais passageiros do ônibus riram enquanto a mulher gorda entrava pela porta de trás. Mais bunduda que gorda, mas lenta de todo modo, e a pressa do cumpridor de horários acelerava o motor em ponto morto. Partiram, viagem quente, a mulher com dificuldade para passar pela roleta, carro nem tão cheio que conseguiu sentar-se, assento duplo.

O trocador fazia troças com um e outro, maldoso, e ela ouvia, calada, como se não fosse com ela. Alguns tinham pena, mas o trocador tinha o dom, e mesmo os constrangidos não continham um sorriso.

Na parada, a mulher levantou, virou-se para sair, disse alto para o motorista:

– Agora espera que o piano vai tocar. – e sob aplausos cobriu o trocador de guardachuvadas.

Gustavo Burla

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