Matando tempo

Matando tempo

Queria ficar mais tempo ali, mas o prazo havia se esgotado. Faltando alguns meses já sabia que queria ficar mais. Faltando semanas, imaginou o que aconteceria se não se apresentasse no aeroporto (seria deportado?). Faltando dias, numa conversa esquentada com um xenófobo local, achou a solução.

Ali, diante do oficial devidamente uniformizado, entregou o passaporte com um sorriso no rosto. Sabia que ficaria mais tempo, que não precisaria voltar para seu país. O oficial carimbou, tomou nota, atualizou o sistema e perguntou, sem devolver o documento: por quê?

Pra ficar mais aqui.

Não tinha outro jeito?

Não encontrei.

Esticou-me toalha e sabonete, disse que removeriam minhas algemas para que eu pudesse tirar todo o sangue que ainda cobria meus braços. No chuveiro, cantei.

Gustavo Burla

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