Capa de revista

Capa de revista

Desde criança ela sonhava ser atriz. E cantora. E modelo e dançarina. E capa daquela revista de celebridades, fotografada naquele castelo de celebridades. Ou na ilha. Podia ser na ilha também, contanto que fosse a de celebridades. Fez curso de teatro, canto, balé e noções de passarela, treinando caras, bocas e respostas às futuras entrevistas em frente ao espelho. Fazia dieta, obviamente, porque o corpo precisava estar perfeito para posar tanto de biquíni quando num longo e justo vestido de festa no château.

Tudo estaria perfeitamente encaminhado não fosse o fato de que não passava em teste algum. Nada de cinema, novela, espetáculo musical, alguma-coisa fashion week, ponta na peça de Semana Santa da paróquia do bairro, entrevista para o jornalzinho da comunidade. Assim seguiram alguns anos, mas ela não desistia e continuava a folhear a revista toda semana imaginando-se ali.

Finalmente recebeu um e-mail urgente convocando-a para um teste como figurante de um desses casos especiais que simulam homicídios. Sentiu que aquela era sua grande chance, mas, na hora em que atravessava a porta de saída, na correria para o compromisso que mudaria sua vida, o carteiro jogou no quintal o último número da sua revista semanal favorita. Não resistiu e pegou-a reverente, imaginando que logo seria o seu rosto naquela capa. Para seu grande estupor, porém, a capa em questão comunicava que, por motivos de força maior e blablabá a publicação deixaria de circular e…

Descobriu que não tinha tanta vocação para as artes cênicas assim.

Táscia Souza

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