Bolo de barata

Bolo de barata

Um bolo de barata reluzia no centro da mesa. No maior estilo arte realista, era rodeado por uma decoração clássica e branca. Pela luz prata que rodopiava, só se aproximando dava para perceber o bolo em forma de barata, todo feito com o esmero da pasta americana.

A princípio, o asco inviabilizou aproximações. Os homens, sempre confiantes, foram os primeiros a rodeá-lo. As mulheres, por causa da curiosidade (e da fofoca), não tardaram a contemplar o nojento e talvez delicioso bolo de barata. Foram elas que notaram outro detalhe macabro naquela decoração inacreditável: no lugar de bombons finos, brigadeiros ou josefinas, serpentevam bombons-baratas. Era um verdadeiro contraste de luxo e lixo. As crianças logo deram um jeito de surrupiar as baratas-doces em miniatura para assustarem e perseguirem as meninas.

No discurso de amor, sobressaiu a explicação. Os nubentes, músicos, só se apaixonaram por causa de uma barata, redondinha e amarronzada. Ela era uma esnobe cantora; ele, um tímido tocador de violão. Numa rara ocasião em que puderam dividir o palco, no momento em que ela se debruçava de emoção numa canção dos Beatles, uma barata surgiu exatamente em frente ao pedestal do microfone.

Prestes a gritar e abandonar o palco, antes ela o olhou, interpelando por ajuda. Com uma esticada rápida e rasteira da longa perna esquerda, ele esmagou o bicho. Com a morte do asqueroso inseto, enquanto ainda cantavam, enfim se olharam profundamente e intensamente. Amor à primeira vista. Não, à segunda vista, pois a barata tinha sido a primeira imagem que dividiram entre si.

Sorrisos amarelos e palmas incomodadas endossaram a ousadia. Porém, após o bolo ter sido repartido, poucos ousaram experimentá-lo. Apenas as crianças caíram de boca. O recheio era de brigadeiro.

Quando acharam que a tosqueira não tinha acabado, bastou abrir o bem casado para revelar a mesma surpresa. Também era em formato de barata. Só assim, no segredo do lar, atreveram-se a comer. E estava apetitoso.

José Eduardo Brum

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