O homem do armário

O homem do armário

para Ian McEwan

Saía do armário somente quando precisava: para comprar comida e descomer. Lá dentro tinha tudo: ele. Se quisesse comer, tinha mantimentos: mais saudáveis na prateleira baixa, suicidas na alta. Se quisesse ler, tinha livros: os que gostava ficavam por cima, um que não lera, por baixo, caso deixasse de gostar dos outros. Se quisesse conversar: não queria.

Jamais estava só: se bastava. Dali de dentro ouvia os sons de longe, da rua, aonde ia raramente; de perto, do armário rangendo, dos cupins quando venciam os remédios. Um dia dominariam o armário, quando os vermes o seu corpo.

Se a rua e os cupins dormiam, dormia também.

Sem dormir, ouvia seus pensamentos: o riso da irmã, amor distante; o grito da mãe, rito presente: arrume o armário, menino! Saía para comprar comida ou descomer: calava a mãe. Como calou a mãe quando ela arrumou seu armário.

Gustavo Burla

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