Rompida

Rompida

Foram três chamados até perceber. Boa de ouvido, achou que viessem do lava jato ao lado. Não imaginava que o próprio quarto tinha virado um:

– Senhora, me ajuda. Segure aqui. Firma com o pano aqui pra não espirrar muito. – era irônico. O jato chegara a atingir a janela na outra extremidade, teto, cama, aparelhos eletrônicos. O seu anjo da guarda deveria ser fashion e estudioso, pois nem os livros, nem o guarda-roupa foram golpeados.

A contragosto, tomou o lugar do bombeiro hidráulico que foi até o 18º andar para desligar registro. Seu apartamento era 501. Espirrando como cascata, inundando quarto, corredor, sala, banheiro, a água não era pura, carregava detritos de tijolo que marcavam as paredes, o chão e ela mesma. Sem ver, achava que a pele era arranhada por onde o fluido escorria.

De repente, percebeu que a máquina de quebrar parede permanecia ligada à tomada, uma ilha de ferro quente, envolta em água nervosa. Moveu-se para desligar e voltou. Tinha medo do choque. Largou o lugar de novo e retornou rapidamente. A pressão, sem as mãos e o pano, faziam com que o volume se espalhasse mais.

Então, abstraiu do perigo que não era abstrato. Imaginava-se recebendo uma descarga, o corpo rodopiando, os cabelos em fumaças, a inanição. Fechou os olhos. A adrenalina era boa apesar do risco de morte. Pelo menos, ganharia páginas de jornal. A família iria criar uma memória afetiva de lembrança. Não mais prazos, não mais correrias, não mais obrigação. Apenas o breu.

Foram três chamados até abrir os olhos. Desligada de ouvido, achou que viessem de Deus, de São Pedro ou do anjo da guarda. Rapidamente, largou os braços e panos:

– Senhora, quem vai te ajudar a secar isso tudo? – o bombeiro hidráulico reparecera. – Tenho outro compromisso. Vai dar um trabalhão puxar essa água toda.

Com gosto, ela vazou dali.

José Eduardo Brum

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