Contando os dias

Contando os dias

No apartamento havia um calendário branco, do tamanho de uma folha A3, pendurado na parede ao lado da mesa da cozinha. Ali anotavam tudo: consultas médicas agendadas, trocas de lente de contato, início do período menstrual, visitas que chegariam para vê-los dali a alguns dias, datas de viagens futuras. E anotavam sonhos também. Não descrições dos devaneios noturnos do inconsciente ou do subconsciente (não entendiam a fundo de psicologia para compreender a diferença), mas sonhos de olhos abertos. Sabiam, por exemplo, o dia em que se mudariam para a casa nova, que ainda não existia; o dia em que um lançaria seu primeiro livro; o dia em que o outro seria entrevistado na avant-première de seu grande filme; o dia em que nasceria o primeiro filho, e depois o segundo; o dia em que o sonho deles — todos os sonhos deles — sairia do sonho e se tornaria som e luz e palavras e vida bem ali, diante deles.

— Mas e se não der certo? Se ninguém ler, ninguém ouvir, ninguém olhar, ninguém existir? E se não entrar no ar? Se não houver ar suficiente pra entrar?

— A gente marca o calendário e continua sonhando, todos os dias.

Táscia Souza

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