Disfonia

Disfonia

Desde novo W. sabia que possuía algo de errado, pois sempre que ia falar era uma outra voz que dizia por ele. A aparente falha de comunicação entre o cérebro e a boca do rapaz era considerada por W. a responsável pelo intrincado tecido de confusões que compunha sua vida. Bastava ver-se diante de um momento crucial para que ele sentisse a hierarquia entre cérebro e boca se inverter de tal forma que, embora a sua mente ordenasse uma resposta, cordas vocais, língua e lábios emitiam outra.

Ainda criança as confusões já se manifestavam. Embora preferisse jogar bola, sua boca sempre concordava com o amigo de que videogame era melhor. Nos aniversários a situação piorava, por mais que desejasse um brinquedo sempre escutava a voz, que se passava como sua, pedindo por outro.  À medida que envelhecia as desconexões entre o querer e o falar se agravavam, interferindo significativamente na vida de W. O rapaz sonhava estudar artes plásticas, mas quando o pai propôs que o filho trabalhasse com ele em sua firma de advocacia a boca de W. respondeu que seria uma ótima ideia e ele, seu cérebro e seu aparelho fonador foram estudar Direito. A tentativa disfuncional de se expressar afetava principalmente as relações de W., pois nos momentos mais inoportunos a voz tomava o controle gerando não apenas situações constrangedoras, mas muitas vezes rompendo laços que o rapaz desejava manter.

Por essa razão, quando começou a ter infecções constantes na garganta, W. acreditou que a fala, aquela presença estranha que sempre se opusera a ele, finalmente começara a atacar seu organismo. Era preciso calá-la ou testemunhar seu corpo sendo inteiramente dominado por essa voz que não era dele. Assim, sentindo as amídalas incharem com a infecção, ele cerrou os lábios. Daquele dia em diante nunca mais falou, fez das letras suas aliadas e da escrita o seu modo de dizer.

Raíssa Varandas

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