Quintana

Quintana

para Juca

No início tudo era pedra. Saíam de meus rins como a própria urina e todas as vezes era o mesmo corolário de dor e sangue.

Daí engordei e me disseram que era o tal do hipotireoidismo, não que eu soubesse o que era isso.

Depois veio o olho seco. Parecia que alguém havia descarregado um caminhão de areia neles. Incomodava, me fazia querer chorar, mas eu não tinha uma lágrima que fosse.

Disso para a cegueira foi um pulo. A visão era meio embaçada, mas aos poucos o que era difícil tornou-se impossível. Mal conseguia distinguir a noite do dia.

Depois a surdez, não completa, mas ainda limitante. Quem dera fosse ela seletiva.

A seguir diabetes, picadas todos os dias e eu não mais tinha um dos meus maiores prazeres, o de comer de tudo.

Por último, a artrose. Dor, dia e noite, o tempo todo. Às vezes melhor, às vezes pior, mas sempre ela ali.

Quintana dizia que na vida temos uma única companhia certa, a morte. Ela está conosco do primeiro ao último de nossos dias. Depois de tudo, passei a enxergá-la, dada a licença poética, com candura e saudade. Quando veio, foi como ir passear no sol, algo que sempre gostei de fazer. Fomos de braços dados e conversando fiado.

Guilherme Felga

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