Rouxinol

Rouxinol

“Se a noite fosse feita para dormir ela não seria tão bonita”. Foi esse o argumento que usou quando o médico disse que receitaria um remédio para que ela regulasse o sono. A verdade é que não sofria de insônia, pelo contrário, dormia profundamente durante oito horas ou mais. A diferença é que preferia adormecer durante as manhãs enquanto reservava as noites e madrugadas para viver. Um amigo, certa vez, a chamara de rouxinol. Rouxinol porque, diferente da cotovia que costuma cantar no amanhecer, esse pequeno pássaro de lamento melódico dedica o seu canto à noite. E isso é o que ela era, uma pequena ave noturna cuja música e caça só se realizavam sob o veludo negro. Mas à justificativa poética dela o médico lançou argumentos científicos, intercalando termos técnicos com puxadas de orelha extraídas dos grossos livros de medicina. Nesse embate entre poesia e linguagem objetiva a lírica saiu perdendo e, depois de alguns suspiros, revirar de olhos e entortar de lábios, a moça acabou aceitando a medicação para dormir. Para a noite o sonho, para o dia a vida, assim seria.

Desde então todas as noites ela extraía uma pequena rodela branca da cartela de 30 comprimidos e engolia com um gole generoso de água. Quando voltava a abrir os olhos percebia que a manhã já se intrometia pelo quarto. Assim iniciou-se sua nova rotina, tediosa e diurna, de noites bem dormidas e dias produtivos, plenamente adaptada ao ritmo comum dos homens, esses seres solares. Ou foi o que lhe pareceu, até começar a notar alguns detalhes estranhos: um poema com sua letra deixado em um caderno aberto em cima da mesa, um desenho que não se lembrava de ter feito, uma mensagem enviada do seu celular da qual não recordava, uma ligação… Toda nova manhã, ao acordar, uma alteração quase imperceptível ocorrida durante a noite se fazia notar, fosse um móvel fora de lugar, fosse a louça suja na pia. Não demorou muito para que ela percebesse que, em um estado de sonambulismo induzido pelo remédio, andava à noite pela casa se ocupando das suas tarefas costumeiras, escrevendo, conversando, comendo. Ela, esse pequeno rouxinol, que mesmo envolvida pelo sono artificial fazia da noite o momento do seu canto.

Raíssa Varandas

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