Clarindo e sua mania em elogiar

Clarindo e sua mania em elogiar

Clarindo era um sujeito normal. Na verdade, quero dizer, um sujeito comum, mediano, desses que a gente encontra por aí aos milhares, igualzinho a mim e a você, e como a maioria das pessoas que a gente conhece, convive e interage em nosso dia a dia. Cidadão honrado, cumpridor de seus deveres, pelo menos aqueles que ele considerava e acreditava ser indispensáveis para o devido exercício cotidiano da cidadania.

Mas Clarindo tinha um defeito visível: não conseguia criticar ou apontar falha em ninguém. Só sabia elogiar.  Se o sujeito possuía um defeito ou qualquer má qualidade de caráter, Clarindo fazia questão de não fazer referência a essa malfazeja fraqueza da moral ou da personalidade alheia.

Se o indivíduo possuísse qualidades, quer fosse uma, apenas uma, Clarindo praticava o ato de generosidade que com ele mais combinava: tratava de elogiar o dito-cujo antes que alguém disparasse uma maledicência contra o referido e ele ingressasse em dificuldade para derramar seus elogios ao fulano em destaque.

Caso ocorresse de Clarindo descobrir haver algum parente, amigo, vizinho ou conhecido, e às vezes até desconhecido, que não merecia receber um louvor, de imediato tratava de identificar um comportamento, uma ação ou uma característica para comentar, de forma pródiga, sua melhor qualidade. Combinava palavras para obter substantivos adjetivados e construir predicados que contivessem advérbios de intensidade que possibilitassem conferir alguma qualidade ao infeliz desafortunado de particularidades louváveis.

Antes que eu seja criticado por você, leitor, por identificar em Clarindo um defeito que você pode computar como qualidade, esclareço: esse atributo de Clarindo causava muitos transtornos, aborrecimentos e decepções, pois trazia implicações, às vezes danosas. E logo explico o porquê! Os abundantes elogios proferidos por Clarindo ocultavam das pessoas próximas os defeitos e desvios de caráter e de personalidade de alguém. Como ele só elogiava, as pessoas que descobrissem por si mesmas a má qualidade de outrem, caso houvesse.

Para alguns, essa mania de Clarindo chegava à beira da psicose, pois o homem entrava em depressão quando não exercitava sua aptidão para o elogio. Para nosso personagem, prontuários, fichas criminais, folha corrida, arquivos, bancos de dados ou qualquer outro instrumento utilizado para guardar informação sobre a vida alheia não tinham nenhum valor. O que Clarindo gostava, o que valia mesmo para ele, era ver o sujeito comportar-se conforme sua personalidade, exercitar seu caráter e agir sem repressão ou impedimento.

Essa mania custou caro a Clarindo. Pessoas próximas passaram a desconfiar ou a não levar em consideração suas benevolências e afagos ao ego alheio. Mas Clarindo continuou a praticar o princípio filosófico que acreditava ser a essência da sensibilidade: o ser é sendo e, mais dia menos dia, a realidade se manifesta e traz à tona a verdade dos fatos, dos seres e das coisas… Discreto Clarindo!

Lutero Rodrigues Bezerra de Melo

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