Previdência

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Na fila do guichê do INSS, a senhora de vestido verde e óculos escuros aguarda impaciente sua vez. Bate os pés no chão de madeira, enche-se de expectativa a cada vez que o apito do painel eletrônico chama uma nova senha e bufa de decepção quando vê que não é a sua. Até que seu número se acende:

— Quero me aposentar — e entrega a carteira de trabalho e toda a documentação que reuniu ao atendente.

— A senhora não tem idade.

— Como não? Tá vendo as rugas na minha cara, meu filho?

— Não tem tempo de serviço.

— Mas eu trabalho desde o início dos tempos!

— Não tem direito.

— Olha, meu filho, esse foi um ano de merda. Você não faz ideia do quanto me exploraram, pra depois pisotearem em mim e descartarem como se fosse lixo. Ninguém respeita trabalhador nesse mundo. Sabe quantas vezes me ameaçaram de demissão? E o que acontece se uma pessoa na minha idade for demitida? Não posso ficar à mercê disso. É meu direito, sim. Ninguém contribuiu nesse planeta mais do que eu.

— Desculpa, é a reforma. Pode perder as esperanças.

Dona Esperança dá um suspiro, recolhe a carteira de trabalho, os demais documentos e, sem aposentadoria, sai dali para passar mais um ano na labuta.

Táscia Souza

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