Fria como um balde de tinta

Fria como um balde de tinta

No primeiro dia de colégio, os pais choraram, mas ela não. As crianças choraram, mas ela não. Os professores, em meio ao caos das crianças chorando, choraram, mas ela não. Nunca chorou. Ou sorriu. Se divertia ou lamentava como todos, mas emoções fortes não eram, digamos, seu forte.

A primeira vez que se identificou com um personagem foi no conto dos irmãos Grimm sobre o homem que queria saber o que era sentir medo. Queria se arrepiar um dia, sentir um impacto interior com alguma coisa, mas nada.

Jogando RPG ela aprendeu a palavra fleuma e imaginou ser isso, que lá era considerada uma qualidade. Encontrou na palavra frieza adjetivo melhor, um defeito. Assim todos a tomavam, como uma pessoa fria, o que muitas vezes confundiam com indiferença e cresceu insensível até a isso.

Quando encontrou Van Gogh pela primeira vez, sentiu nevar nas bochechas.

Gustavo Burla

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