Ela cultivava o gosto pela dúvida e a incerteza

Ela cultivava o gosto pela dúvida e a incerteza

Ela não tinha certeza de quase nada. Sentia uma atração quase fatal por expressões que produzissem dúvidas. Ou melhor, adorava locuções verbais, orais ou escritas, que traduzissem e demonstrassem suas incertezas, incluindo aí as improbabilidades de sua vontade sem desejos. Para ela, a dúvida era o fundamento da pureza da mente e da alma.

Assim, o modo subjuntivo era a configuração sintática que mais lhe fascinava. Casava bem com suas suspeitas e desconfianças, de tudo e de todos, e principalmente dela mesma.  Vivia exercitando a gramática para arranjar ocorrências linguísticas em que as formas conjuntivas pudessem ser cultivadas… E, para isso, não economizava oportunidade.

Lia romances, contos, crônicas e reportagens em busca de citações que contemplassem seu gosto pela imprecisão. Em qualquer ambiente ou situação, caso tivesse oportunidade e a criatividade fosse pródiga, aproveitava os três tempos gramaticais, presente, pretérito e futuro, para produzir efeitos de sentido em consonância com sua vocação para a suposição.

Sempre que havia a possibilidade de praticar uma ação que pudesse ter implicações mais sólidas e duradouras em sua vida, fazia questão de usar em seu favor o benefício da dúvida e caprichava na incerteza: “Se eu realmente vier a fizer isso…”. Assim é que, com o passar dos anos, sua relação com a improbabilidade foi tornando-se incorrigível. Duvidava até dos fatos acontecidos e examinados pela história. Gostava de transformar um fato verdadeiramente ocorrido em um episódio incerto… Sabia-se lá a quem poderia interessar tornar um fato não sucedido em uma ocorrência autêntica…

Quanto ao futuro, aí é que ela abusava da (im)probabilidade… Sem que nem para quê, lá estava ela alinhavando conectivos duvidosos. “Se eu fizer isso, acontecerá aquilo… Se eu não fizer, poderá advir isso… Ou talvez não…”. Sempre que brotava em sua mente um “Quando eu…” ou um “Se eu…”, surgia em sua memória um dito que leu num desses livros de autoajuda: “Que seu sim seja sim, que seu não seja não… E que não exista um talvez!” Como assim? Não existir um talvez? Nunca… A vida se tornaria impossível! Parou de ler o livro imediatamente. Odiou aquele autor e desqualificou seus escritos.

Até que um dia o Amor tomou conta de seu coração, mente, corpo, alma… e outras expansões espirituais, caso existam… E as extensões físicas sentiram mais ainda os efeitos daquela paixão sem limites ou restrições. Desde que o relacionamento se iniciou, o namorado percebeu que as frases que ela enunciava eram um tanto quando soltas e abertas: “Contanto que você queira… Se é bom pra você, é bom pra mim… Ainda que você não me espere… Antes que eu me esqueça… Tomara que você goste…”.

Aquele gosto pela dúvida, como um vírus, contaminou o namorado, que depressa e de forma intensa, absorveu aquele hábito. Poucos meses depois do início do namoro, o rapaz também estava mergulhado na dúvida. Após dois ou três episódios de discussão, ele entrou em confusão mental sobre o grau de afinidade que havia entre eles. E após uma noite de amassos, cheiros, beijos e abraços, ele se saiu com essa pérola de frase: “Mesmo que a gente continue tentando, acredito que nosso relacionamento não dará certo!…” Ela, sem tremeluzir, respondeu na lata: “Será?!”.

Lutero Rodrigues Bezerra de Melo

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