Meteoralergia

Meteoralergia

Sua avó sabia quando ia chover pela dor que sentia no joanete. Ele herdara o dom divinatório, mas não o sistema. No seu caso, a previsão do tempo variava com o tipo de coceira que o acometia: nas pernas, era chuva rápida, alternado apenas entre um pé d’água de verão — coxa esquerda — ou um chuvisco fora de época no inverno — panturrilha direita. Se a comichão subisse para a barriga, era temporal de um dia inteiro na certa. E, caso a ameaça fosse uma tempestade com direito a raios e trovoadas, dois dias antes seu pescoço era dominado por urticárias.

Quando ouviu dizer que o mundo ia acabar, procurou um especialista em alergia e imunologia com uma semana de antecedência, com medo de que um edema de glote prenunciasse o dilúvio e ele não assistisse o apocalipse. O mundo de fato acabou, na maior seca já vista, mas, derrubado pelo anti-histamínico, ele não viu.

Táscia Souza

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