Parto

Parto

Após nove meses — gerando, acalentando, nutrindo aquela outra vida que brotava ali, bem do meio de suas entranhas —, aquela dor era esperada. Começou cerca de doze horas antes, uma contração no ventre que ia e vinha, em intervalos cada vez menores à medida que o momento exato se aproximava. De vez em quando os espasmos se aliviavam, como a lhe dar trégua, mas apenas para virem ainda mais fortes minutos depois, sempre mais frequentes. Por um instante pensou em desistir, achou que não iria aguentar. O suor frio aparecia em minúsculas gotas na testa e no pequeno pedaço de pele sobre os lábios, logo abaixo do nariz, enquanto ela ouvia os passos: de quem estava ali para trabalhar e de quem estava ali só para assistir. Alguém tocou sua mão; um sussurro em seu ouvido desejou-lhe sorte num dialeto próprio. Apertou os olhos, sentindo o último retraimento de seu corpo seguido de uma plena dilatação. Quando os abriu, já sob a luz da sala preparada para o espetáculo, uma personagem nasceu.

Táscia Souza

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