Coleção

Coleção

A educação quase canina dos pais ensinou Ester a, desde pequena, guardar estrelas de papel. Eram sua recompensa.

Comeu tudo: estrela. Escovou os dentes: estrela. Com licença, por favor, obrigada: estrela.

Ester cresceu com uma coleção grande, vistosa e organizada de estrelas de papel, mas cresceu incapaz de uma aventura. Aventuras não geravam estrelas.

Aos 16 anos ela conheceu Ana. Sua primeira aventura. Um beijo gerou um punhado de estrelas brilhantes, de mil cores e tamanhos — todas dentro dela.

Os amigos viram a garota sonhando acordada e diagnosticaram: você tá apaixonada, Ester. Ela não gostou de nomear assim. Paixão tinha muita contaminação do mundo, o termo não cabia na pureza e na simplicidade do que ela sentia.

Cinco dias depois, Ester e Ana trocaram mais um beijo. Ela sorriu consigo quando solucionou o mistério, e contou aos amigos: Podem chamar de apaixonada, se assim quiserem. Mas sou colecionadora de estrelas.

Louise Nascimento

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *