Violação

Violação

O primeiro incômodo não fora bem com a palavra em si, que, aos cinco anos, você nem sabia o que significava. O problema fora com a forma como sua colega de pré-escola a pronunciava, rodopiando ao seu redor, como um xingamento. O som daquela palavra estranha, sussurrada a cada vez que a outra menina se aproximava do seu ouvido, atingia sua audição como um tiro de escopeta. De vez em quando, a garotinha ainda a enunciava com a hostilidade do aumentativo, o que tornava o termo parecido com o líquido que sua mãe usava para limpar o esmalte descascado das unhas, só que diferente, com uma fantasmagoria inicial, um buuu ameaçador. Um susto.

Foi só algum tempo depois que, sem ter contado a ninguém sobre o episódio, você descobriu sozinha o significado da expressão. Deu-se conta também de que não havia nada de realmente ameaçador em nomear aquilo que se encontrava no meio das próprias pernas, embora, ao longo da vida, fosse perceber que as diferentes maneiras como era encarada por causa daquilo a colocavam em perigo. Como aquele ao qual — e você só constata isso agora — sua antiga colega, que você passou anos detestando, poderia ter sido exposta. Afinal, por que uma criança de cinco anos saberia usar aquela palavra específica, com aumentativo e tudo, para ferir se não tivesse sido ferida por (causa d’) ela também?

Foi necessário muito esforço para que, já adulta, você conseguisse dizê-la com naturalidade. Para que conseguisse até cantar, numa marcha pelos direitos das mulheres, que ninguém tinha o poder de controlar aquela parte de seu corpo, só você. No entanto, a cada vez que você via aquelas três sílabas grafadas num papel ou digitadas numa tela qualquer, a mesma velha sensação de violência a dominava. Talvez fosse aquela letra U ali, que as pessoas insistiam em colocar no lugar errado. Substituir o O pelo U, como também era hábito fazer com o verbo correlato, era mais que uma opção ortográfica. Para você, era uma agressão. Era transformar o que deveria ser um elo num urro.

Táscia Souza

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *