No meio do caminho tinha um

No meio do caminho tinha um

Caminhada diária morro acima pela calçada ladeada de grama e foi o canto do olho, ou o alto do olho, que percebeu ao longe um corpo estranho no caminho. De longe uma pedra, mas de um dia pra outro não poderia surgir ali. Um monte de areia talvez, mas pequeno e disforme demais pra ser um monte de areia e a cada passo a cor ganhava textura. Um casaco jogado, caído, perdido, deixado por alguém desapegado no calor da noite. Ou outro desapego, menos espiritual e mais orgânico. Ou espiritual em alguns casos, mas não naquele ali. Parou. Poderia seguir e descobrir o que era e talvez arriscar o nojo e o cheiro porque um cavalo não poderia deixar rastro tão pequeno e um cachorro… Talvez um cachorro grande pudesse. Um homem, um ser humano, certamente. Do outro lado da rua tinha uma calçada igualmente ladeada por grama e limpa. Só passar ali pelo lado não seria também um problema se… E se não fosse? O casaco, ou uma… meia? Improvável. Seguiu resoluto, na coragem de que passaria direto e esperaria que a erosão (eólica, tempo muito seco) levasse pra longe. No dia seguinte nada teria. Levantou o rosto e com ele o nariz, pra se distanciar, seguiu olhando a paisagem, até o inevitável passo ao lado da coisa prender o olhar. Que bosta, era uma blusa.

Gustavo Burla

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