Caminho das águas

Caminho das águas

A biblioteca não catalogava os livros por áreas, separando volumes nacionais de estrangeiros ou prosa de poesia. Também não catalogava por títulos. Nem pelos sobrenomes dos autores, dispostos em ordem alfabética.

Aquela biblioteca catalogava livros por lágrimas. Numa estante se encontravam os que não provocavam choro algum (a não ser que fosse de raiva pelo tempo perdido). Em outra, do lado oposto, estavam dispostos aqueles que faziam derramar corredeiras entrecortadas de soluços. Entre as duas, uma progressão aritmética de prateleiras, páginas e prantos.

Mas havia ainda o lugar de destaque, bem no meio do salão principal, espécie de púlpito no qual a bibliotecária expunha a recomendação da vez: a última história que tivesse feito escorrer uma única gota, lenta e cheia, por seu rosto, ao mesmo tempo que lhe arrancasse um sorriso.

Táscia Souza

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *