Peito de pé

Peito de pé

Menina gorda, desengonçada, de pernas tortas e (desde a adolescência) peitos grandes. Sonhava ser bailarina. Os pais não queriam gerar trauma e deixaram. Frequentou escola por onde ia e na cidade em que foi fazer faculdade encontrou o amor na dança.

O professor se apaixonou pelo peito do pé dela. “Lindo! Nunca vi tão maravilhoso! Que envergadura!”. Casaram-se e ela seguia a dança. Dele. Bailarino da companhia da escola. Ela não passava das aulas, sabia seu limite.

Ele só deixava que ela saísse de casa de sapato fechado. “Poxa, meu coração! Vai sair mostrando o peito do pé pra todo mundo?” Ela sentia o carinho e topava. Viagem, só no inverno, pra não andar de sandália pela rua. Mesmo em casa, recebia visitas de meia, no mínimo.

Nadar já não nadava. Nem sentava pra tomar sol. Quando pediu pra irem pra praia, apanhou. Da cabeça aos tornozelos. Ficou em casa, ele em turnê. Ele voltou pra um presente na cama: no envelope “fui pra praia”, na caixa, os peitos dos pés.

Gustavo Burla

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