Quatro amigas e uma cartela de bingo

Quatro amigas e uma cartela de bingo

para minhas companheiras de bingo e de luta

As quatro amigas se debruçaram sobre a cartela de bingo como se daquilo dependessem as próprias vidas. Nas rodadas anteriores haviam estado desanimadas, a dificuldade de fechar as quadras e as quinas exigidas fazendo com que o interesse pelo jogo diminuísse um pouco mais todas as vezes que um número saía e não estava ali. 

Aquela cartela, no entanto — a décima e última delas, na única rodada em que, para ganhar, era preciso cartela cheia —, preenchia-se como mágica. A cada dezena marcada com um X pela primeira amiga, as outras três se entreolhavam em crescente entusiasmo, na expectativa da chegada de uma sorte que nos últimos tempos andava sumida, quem sabe fugida para longe de braços dados com a esperança. Talvez voltassem ali, foi o que cada uma pensou, sem coragem de dizer para as outras, a não ser em silêncio, as palavras reduzidas a arqueares surpresos e infantis de sobrancelhas que deixavam ainda mais abertos oito olhos recém-brilhantes. 

Quando faltava apenas um número, porém, não tiveram coragem de pedi-lo em voz alta, como fazem os bingueiros costumazes ao ficarem pela boa. O prêmio saiu para o casal ao lado, enquanto o 64 delas permaneceu em branco, o único quadrado do papel sem um X riscado de caneta azul. 

Com alívio, sorriram. A premiação não veio, mas o golpe também não. 

Táscia Souza

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