Sem Natal

Sem Natal

Haviam sido tantos os aborrecimentos ao longo dos anos, tantas as frustrações, tantas as brigas de família, que ele decidiu cortar o Natal de sua vida. Primeiro soltou as renas, depois encostou o trenó bem no fundo da garagem, antes de doar as roupas para a caridade — em algum lugar do mundo elas certamente aqueceriam quem sentia frio — e aparar a barba bem rente à pele, para que ninguém o reconhecesse.

Saiu pelo mundo de férias, à procura de um mar gelado e um sol quente, porque de dezembros nevados já estava farto. Quando os encontrou, mal se deu tempo de providenciar uma hospedagem. Apenas se estirou numa cadeira de praia esquecida, óculos escuros nos olhos, pensando que aquele momento sem Natal era o melhor que poderia querer.

Na areia branca, porém, sob os coqueiros, pedaços de cartas garranchosas e incompletas endereçadas a si haviam sido largadas pelos meninos que vendiam toda sorte de produtos aos turistas: na certa porque sabiam ser inútil terminar de escrevê-las; na certa porque já haviam aprendido que desejar muito não bastava para que pedidos fossem atendidos; na certa porque tinham certeza de que ele se aposentara há tempos, antes mesmo de se aposentar.

Táscia Souza

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