Sete ondas

Sete ondas

Estava escrito no manual de prosperidade que ela decorara ao longo de dezembro: “quando pula as sete ondas no mar, você invoca os poderes de Iemanjá para abrir caminhos para o próximo ano”. Foi com isso em mente que ela própria abriu caminho entre a rebentação e se posicionou, com a água um pouco acima da cintura, de frente para o horizonte, à espera do septeto que transformaria sua vida a partir da meia-noite. 

Na primeira, que suavemente levantou seus pés do fundo, pediu saúde, para si e para a família. Na segunda, um pouco mais alta — o que considerou uma sorte, se o tamanho da onda pudesse ser diretamente proporcional à realização do desejo —, invocou a promoção tão desejada no emprego. Terceira, quarta e quinta, porém, vieram tão rápidas que mal teve tempo de almejar paciência, sabedoria e uns quilos a menos antes que a sexta chegasse e ela suplicasse que a Rainha do Mar lhe enviasse toda a energia possível para encontrar um grande amor.

A energia veio, de fato, com força, quebrando em cima dela e a arrastando, não sem antes virá-la do avesso, até a faixa de areia. 

Ao contrário do plano, foi a sétima onda que a pulou, uma marola de espuma, enquanto o único desejo restante foi levantar com alguma dignidade dali.

Táscia Souza

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