Sobrevida

Sobrevida

É porque a gente tem toda essa vida que ninguém conhece. E toda essa morte também. Saio do meu apartamento que, por ter final 06, fica no extremo do corredor e passo pelas cinco portas restantes sem que alguém por trás delas saiba que os pés que caminham ali, os tênis rangendo no piso frio, já chafurdaram no próprio sangue. Entro no elevador, que pode estar ocupado ou não, e faço — raras vezes — contato visual ou não com algum vizinho de um andar qualquer acima ou abaixo e, mesmo quando nossos olhos se encontram por um milissegundo, ele não sabe só de responder ao meu breve sorriso de bom-dia o porquê de ter um molar faltando do lado esquerdo da arcada inferior ou um pequeno trincado no canino superior direito. Cumprimento o porteiro e agradeço o recado de que o carteiro passou e aviso que pego a correspondência na volta, tudo sem que ele suponha que o nome no envelope, com meu endereço de final 06, não é o meu. Que é o nome de alguém que anda rangendo os passos pelos corredores, que entra em elevadores, que sorri bons-dias de dentes quebrados ou ausentes, que recebe correspondências, que chafurda no próprio sangue ou na própria merda, mas que há muito já deixou de existir.

Táscia Souza 

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