Diagnóstico

Diagnóstico

O clínico do posto de saúde, desses das antigas, generalista, era seu velho conhecido. Fora ele quem a tratara quando tivera hepatite, ainda criança. E era também ele a pessoa que receitava o número certo de gotas do broncodilatador a serem pingadas no aparelho de nebulização para a aliviar as crises infantis de bronquite. Sabia o único antibiótico possível para tratar as recorrentes amidalites e, depois que as amídalas se foram, as faringites. Prescrevia o descongestionante nasal de melhor efeito contra as sistemáticas crises de rinite ou, pior, de sinusite. Recomendava o colírio mais eficaz para a conjuntivite alérgica. E também a encaminhara, quando a situação fugiu demais de sua alçada, para o colega especialista que poderia resolver de forma mais eficiente o problema da gastrite.

Nem com toda essa experiência, porém, ele foi capaz de identificar a razão dos edemas e eritemas que se alastravam por suas pernas e braços todas as madrugadas, cronometradamente duas horas depois de ela pegar no sono, despertando-a com uma comichão tão insuportável que a fazia querer arrancar os membros a unhas. Que se tratava de um caso de urticária crônica estava óbvio, mas qual a causa se nenhum dos exames de alergia — afora os que confirmaram sua suscetibilidade a elementos que provocavam  bronquite, amidalite, faringite, rinite, sinusite, conjuntivite — dera positivo?

No consultório, no fim do corredor do posto de saúde, ela apenas encarou os olhos velhos e desanimados, enquanto ele lhe informava o diagnóstico, a letra a mais rachando o sufixo, como a intensificar, com a quebra interposta por sua marca plural, a gravidade da doença:

— É só triste.

Táscia Souza

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