Ouvido absoluto

Ouvido absoluto

Era um fenômeno auditivo raro, explicara o otorrinolaringologista, marcado pela habilidade de uma pessoa identificar ou recriar uma dada nota musical, mesmo sem ter um tom de referência. Fosse uma condição congênita, poderia ter sido um pianista de renome, o primeiro violoncelista de uma orquestra, um exímio violonista. Mas não. Surgira depois de uma infecção qualquer que exigira antibióticos mais fortes do que o esperado e deixara, como sequela, a estranha capacidade de escutar o mundo ao redor — e, o que às vezes era mais doloroso, reproduzi-lo — como um concerto caótico.

Embora talvez fosse tarde para convertê-lo em música, havia, porém, algo de poético no novo dom. Notara a estranheza da aptidão durante a convalescência, quando tudo o que restava era o telefone. A cada vez que ela dizia alô, o leve arquejo que só ele identificava soava em Lá como se ela antes não estivesse ali. Compadecia-se ao perceber em Dó, ainda que ela tentasse disfarçar, um sussurro de tristeza surgida não se sabia de onde. Ou se divertia quando a flagrava se espreguiçar em Ré no primeiro telefonema da manhã, o tom do suspiro denunciando que, ainda deitada, ela se esticava indolente sob o lençol, numa marcha tão lenta que quase era passo atrás.

A melhor sinfonia, contudo, aconteceu ao receber alta do médico. Saindo do consultório, ligou feliz para perguntar se ela gostaria de visitá-lo e a voz ecoou em Si que sim.

Táscia Souza

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