Closet

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Melhores amigas compartilhavam o guarda-roupa; a minha e eu, o dicionário. Se queríamos parecer diferentes, ou mais bonitas, ou mais interessantes, ou se sentíssemos um ímpeto profundo de impressionar alguém, corríamos até o armário alheio, às vezes pedindo, outras nem isso, e tomávamos emprestadas palavras. Adjetivos eram nossas peças favoritas, mas os dela costumavam ser mais largos, fluidos, diáfanos. Na adolescência eu pegava um qualificativo seu — por exemplo, incandescente, um de seus preferidos — e com ele fazia os olhares de todos os garotos da sala se perderem na curva que o tremeluzir da pronúncia deixava entrever na minha boca. Os meus, porém, tendiam a ser mais curtos, justos, cingidos, tão apertados que beiravam o desconforto. Cru era um desses que ela apanhava sempre, a letra tornando-se mais marcante ao rabiscá-lo num bilhete sedutor. 

A primeira vez que me vesti para um homem foi com um indômito retirado de seu caderno. A primeira vez que ela se despiu para um foi ao dizer, com uma oração minha, que nenhuma nudez provoca tanto desejo quanto a própria palavra nua. 

Táscia Souza

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