Verde que não quero ver-te

Verde que não quero ver-te

Ele sabia.

Não importava o diagnóstico que os pacientes tivessem. Quando completavam 96 horas no CTI, ele sabia os que viveriam e os que morreriam – os que resistiriam e os que partiriam. Era um misto de sinais, mas tudo guiado pela cor do paciente. Quando, após 96 horas, eles ficavam com aquela cor esverdeada, já era. Os médicos podiam tentar de tudo, que nada adiantava. O esverdeado parecia entranhar e nada mais cedia.

Um dia, quando lá chegou uma tia queridíssima, ele tramou um plano para se a cor aparecesse.

Apareceu.

Ele então sacou o estojo de maquiagem que havia surrupiado da irmã, seguiu o tutorial com mais likes que havia achado na web e fez a base facial mais perfeita que conseguiu. Até rosadas as bochechas quase não mais perceptíveis da tia ficaram.

Mas esverdeou.

Gilze Bara
(da série Minicontos e minicrônicas de CTI – ficcionais, reais e confessionais)

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