Noites de Natal

Noites de Natal

Seu nome verdadeiro (mas isso só descobrimos bem depois) era Natanael. Todos, sem exceção, até então o chamavam de Natal. Passava sempre no mesmo horário, perto da meia-noite, carregando um saco de polipropileno cheio que parecia desproporcionalmente grande para o corpo magro. Não era um saco vermelho. Era um saco de ráfia branca encardido, quase tanto quanto o rosto encovado, um pouco menos que os dentes que tinham sobrado na boca. Às vezes oferecia rosas que alguma floricultura descartara ao fechar as portas no entardecer; alguns clientes compravam, a maioria não. Noutras trocava um pedido de desculpas e um muito obrigado por uma moeda ou um resto de petisco, e saía no prejuízo pelo tanto que valia, sem ser devidamente recompensada, aquela boa educação. Na maior parte das noites, porém, limitava-se a recolher das mesas postas na calçada — e a fazer tilintar no fundo do saco — as latas vazias deixadas para trás. Não era para vender para a reciclagem, contou-nos um dia, enquanto nos dividíamos entre a pouca atenção e a muita cerveja. Era para construir o robô gigante que o filho tinha pedido havia mais de um ano e que ele prometera, com olhos molhados e um sorriso de todos os dentes restantes, conseguir.

Ali, naqueles bares do Centro, toda noite era de Natal.

Táscia Souza

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