Déjà vu de si

Déjà vu de si

Como a situação beirava o insuportável, ela cedeu e foi ao médico.

– Em que posso ajudar?

– Abri a caixa de Pandora, ou melhor, a minha caixa de fotografias, do tempo em que ainda revelávamos e imprimíamos.

– Sim, e o que houve? Crise de rinite?

– Só se for rinite no coração, doutor… Não estou suportando olhar as fotos e lembrar dos momentos que elas eternizaram.

– Mas por quê?

– Porque eram momentos que estavam esquecidos na minha memória. E eu tô puta com isso. Como havia esquecido tudo que vivi e senti? Como consegui ligar o piloto automático e simplesmente seguir sem lembrar??? Minha memória me traiu. Duas vezes. Primeiro, por esquecer tanta coisa da minha vida. E, depois, por lembrar. Como vou continuar vivendo lembrando de tudo aquilo, sentindo um pouco do que senti em cada momento retratado?

– Isso é simples. Toma este psicotrópico. Duas vezes por dia, mas nunca em jejum. Ele vai deixar sua memória anuviada. Nada de lembranças!

– Por quanto tempo?

– Pra sempre.

Gilze Bara 

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