Quase dois reais

Quase dois reais

Querido amor desencontrado,

o último dia 17 de março estava marcado para ser o primeiro dia do resto das nossas vidas. Às 17h06 eu desceria do táxi em frente ao seu trabalho — que eu ainda não saberia ser o seu trabalho — bem a tempo de vê-lo saindo após bater o ponto cinco minutos depois do fim do expediente. Eu estaria apressada para entrar em casa, no prédio logo adiante, e apenas jogaria uma nota de vinte e um tá-certo ao motorista, dispensando os quase dois reais de troco que me fariam falta mais tarde para comprar um band-aid na farmácia da esquina como pedido de desculpas por ter aberto a porta do carro com força bem na sua cara. A sorte é que você teria dinheiro suficiente e também bondade suficiente para, apesar de eu tê-lo machucado, me convidar para um café. Você descobriria duas coisas com o tempo: que eu odeio café, mas, esquecida da pressa, fingiria gostar naquele dia (e não apenas por culpa); e que eu te machucaria muitas vezes mais ao longo da vida, assim como você me machucaria também.

Agora estamos aqui, impedidos de ferir um ao outro, e também de pedir desculpas baixinho à noite antes de dormir, porque você não teve trabalho naquele 17 de março, nem nos dias seguintes, e tampouco eu pude sair do apartamento desde então. Da janela observo a farmácia da esquina, onde, entre máscaras e álcoois que voláteis desaparecem do estoque recém-reposto, imagino um curativo avulso esquecido numa prateleira.

Com todo o amor que não há,

Eu

Táscia Souza

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