Juizado de Pequenos Medos

Juizado de Pequenos Medos

Naquele tempo a gente ia acumulando um grande arquivo. Um arquivo kafkiano. Um arquivo escuro, quente e que sufocava quem precisasse entrar e quem dele não conseguisse sair. Um arquivo desorganizado que se estendia de um edifício a outro e a outro e a outro. Um arquivo de processos começados e nunca concluídos. Um arquivo de causas e casos empilhados por corredores estreitos. Labirintíticos. Intermináveis. Um arquivo sinuoso que desembocava em órgãos inesperados — não escritórios ou secretarias de tribunais, mas cérebros, estômagos, fígados.

Nas estantes do arquivo, nas prateleiras, nas pastas, nas células, a gente amontoava cada um dos nossos mais ínfimos desesperos.

Táscia Souza

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