Ciúme em tempos pandêmicos

Ciúme em tempos pandêmicos

Ela andava terrível nos últimos tempos…

Cansada, enjoada, sentindo-se contrariada, rebelde.

Fazia um misto de revolta e luta por independência.

Por sua independência.

Às vezes simplesmente ignorava as ordens cerebrais.

Outras vezes as cumpria, mas com falhas, deixando sempre algo escapar.

Quando se concentrava bem, até que fazia direitinho tudo o que tinha que fazer.

Fato é que ela pagava o preço por tanto trabalho.

Eram mais de 12 horas de labor por dia.

Na secura do ar ou no úmido da água.

Digitando, digitando, digitando…

Lavando, lavando, lavando…

E quando ela parava, não parava de verdade – tinha sempre um algo mais.

E se era solicitada a fazer aquilo que lhe dava tanto prazer… nada.

Seca. Entressafra.

Recusava-se a colocar as escritas da mente no branco da tela do computador.

Foi quando um amigo deu aquela cutucada e matou a charada:

– Desenha! A mão deve estar com ciúme do teclado!

E ela desenhou as letras com lápis, numa folha de papel.

E a paz se fez novamente.

Gilze Bara

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