Sonora para reportagem imaginária engavetada

Sonora para reportagem imaginária engavetada

Emanuel, 23 anos, estudante de engenharia mecânica e consertador de relógios

A maioria desses relógios era do meu vô Elias. Mas alguns fui eu mesmo que comprei. Desde que eu vim morar aqui, na casa deles, dele e da minha minha vó, né?, ele me ensinou a consertar relógios. Era minha brincadeira predileta. Enquanto meus colegas sonhavam com um Lego no Natal, ainda que nenhuma família aqui da rua tivesse dinheiro pra comprar, eu brincava de encaixar pecinhas de engrenagem. Algumas minúsculas. Enquanto o pessoal do bairro se reunia pra brincar de pique-esconde, meu passeio preferido era ir à feira de domingo, naquela parte que parece um mercado de pulgas, sabe?, acompanhar meu vô à procura de relógios antigos que a gente pudesse consertar. Desmontar e remontar. Usar peças descartadas em outros relógios também descartados, fazendo com que eles fossem capazes de marcar o tempo de novo. 

Agora que ele morreu dessa tal de síndrome respiratória aguda, os relógios estão parados, porque ainda não consegui encontrar um ponteiro específico pra horas que passam tão rápido por dias todos iguais.

Táscia Souza

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