Kinder Ovo

Kinder Ovo

Dirigia irritado. A ligação do colégio avisando que seu filho se envolvera em uma briga o tirou do sério. Sempre fora boa gente, nunca brigou sequer puxando o cabelo do coleguinha. Agora seu filho faz uma dessas, com apenas doze anos e já encrenqueiro. Quebrou o dente do amiguinho. Tudo por causa de uma piada. A tal do Kinder Ovo, que sempre ouviu quando criança, e nunca o incomodou. Era apenas uma piada. Lidava bem com ela, e com as outras dezenas, incessantes, que sempre traziam um pouco de ranço em seu íntimo. Mas deixava pra lá. Sem brigar por essas bobagens conseguiu estudar, ter um bom emprego, família. Estava há dez anos no escritório de advocacia, um dos melhores da cidade, sempre competente, elogiado pelos patrões. Foi o que mais ganhou casos, os mais difíceis. Sempre postulou a vaga de sócio, mas, das três que foram abertas nos dez anos, ele não as conseguiu. “Talvez na próxima”. Os que conseguiram não eram melhores que ele. Perderam vários casos, mais do que ganharam e… foram promovidos. Mas continuaria a se esforçar. Era o único preto do escritório, sempre é mais difícil quando se é preto. Mas nunca se incomodou com as piadinhas dos colegas de trabalho. Naquele dia mesmo um deles havia relembrado a do Kinder Ovo, quando soube o motivo da briga. Riu-se. Pois era apenas uma brincadeira. E como uma puxa a outra, acabaram sendo umas dez… Mas era só brincadeira. O tapinha no braço evidenciava. Se brigasse hoje não seria um dos advogados do escritório, apesar de que sabia que tinha potencial pra ser sócio. Tinha de ser bonzinho por que era preto… Tinha de ser bonzinho por que era preto?

“Joga pra cima. Se voar é urubu, agarrar na árvore é macaco, e se cair no chão é bosta.”

Freou bruscamente e virou o carro. 

Tinha que quebrar uns dentes.

Paulo Cesar Silva

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